quinta-feira, 5 de abril de 2018

Opinião: Por Treze Razões, de Jay Asher


Por Treze Razões, de Jay Asher, é um romance YA (Young Adults: Jovens Adultos) contemporâneo que nos apresenta Clay após a notícia do suicídio de uma rapariga que andava a escola dele, Hannah. Um dia, ao chegar a casa, repara numa caixa com cassetes lá dentro. Depois de a abrir e ouvir a primeira cassete, a vida de Clay muda para sempre.

Este livro tinha todo os ingredientes para ser um romance excelente para os mais jovens. Poderia ter tido uma abordagem cuidadosa e frutífera relativamente a assuntos extremamente sensíveis, como o suicídio, o assédio sexual, entre outros. No entanto, a receita foi terrivelmente executada e o produto final foi um desastre.

O pior foi o facto de o suicídio ter sido construído como uma caça ao tesouro, mas esse tesouro era uma vingança doentia. As 13 razões do suicídio de Hannah correspondem a 13 pessoas e algumas delas não fizeram atos grandiosamente maus para alguém cometer suicídio. Ou seja, o suicídio na adolescência, aqui, é tratado como um jogo, uma anedota. É como uma forma de criar um livro que "pica", isto é, que mexa com o leitor. Quanto a mim, não me fez sentir nada para além de raiva e de desilusão.
Um outro aspeto péssimo é o facto de o narrador, Clay, estar sempre a culpar Hannah por se ter suicidado. É um livro horroroso também nesse aspeto, por culpar as vítimas e por acentuar ainda mais a "perfeição" masculina quando, na realidade, praticamente todas as personagens masculinas deste livro são exemplos das consequências da masculinidade tóxica (não, não estou a dizer que ser homem é mau; procurem pela expressão no Google e entenderão), que afeta a nossa sociedade.

Eu pensava que este livro iria ser como uma chamada de atenção. Iria "ensinar", através da ficção, como devemos lidar com uma morte por suicídio. Como devemos lidar com vítimas, com as pessoas afetadas por uma tragédia como esta. Mas este livro é praticamente tudo o que não se deve fazer.

Agora, quanto a aspetos literários, não é muito melhor. Escrita demasiado simples para os assuntos abordados e a construção da narrativa, como já devem ter reparado, é péssima, bem como a construção das personagens. Escrever uma pessoa com imperfeições (ou seja, qualquer ser humano) é muito diferente de escrever personagens sem pés nem cabeça, ou seja, sem profundidade psicológica. São demasiado vazias para os assuntos em questão.

Para quem pensava que Por Treze Razões poderia ser uma ótima forma para um leitor mais novo poder entrar em contacto com estes temas pesados, por favor, procurem outro romance. Este livro é uma ofensa.
O suicídio não é uma brincadeira. O suicídio não é um jogo. O suicídio não é uma forma de vingança. O suicídio não é algo que deva ser discutido da maneira como o autor fez neste livro, como se fosse uma tolice de adolescentes.
Não leiam este livro.

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2 comentários:

  1. Concordo a 100%!
    Li este livro em 2015, muito antes de se falar da criação da série. Inicialmente, parecia uma premissa tão interessante e tão única que entrei na história cheia de expetativas, mas depois foi uma autêntica desilusão.
    Primeiro de tudo, e como tu, achei que alguns dos motivos para o suicídio não o justificavam, inclusive foi um dos pontos que deixei bem claro na opinião que fiz na altura. Sei que é uma opinião incomum e polémica, mas havia motivos que me pareceram apenas uma tentativa do autor de alongar a história.
    E depois, e o que mais confusão me fez, foi a tentativa de tornar o suicídio mais poético.
    Desde que a série foi lançada, que disse que não a ia ver exatamente por saber como é a história do livro (e não a apoiar). Percebo que existam pessoas que gostaram e não viram mal nenhum, mas não consigo apoiar uma história que é, na minha opinião, errada para quem sobre ou já sofreu com pensamentos deste género.
    Tudo para mim não passou de uma tentativa de tornar o problema poético.
    De uma maneira geral, a história não foi para mim, mas opiniões são opiniões.
    Como já referi, não vi nem quero ver a série lançada. Agora vão lançar a segunda temporada e eu espero que eles tentem ao menos resolver problemas do primeiro livro, assim como tentar trazer mais atenção para este problema, e não apenas torná-lo bonito.
    A tua opinião foi fantástica de ler, referiste todos os pontos que eu senti em 2015, alguns que já nem me lembrava. Infelizmente, não é uma opinião comum.
    Boas leituras.
    - Mad (http://presa-nas-palavras.blogspot.pt/)

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    1. Obrigada pelo comentário!
      Eu cheguei a ver os três primeiros episódios (acho eu) e acho que a série "engana" mais, ou seja, consegue esconder melhor o quão tóxico esta narrativa é.
      Há, de facto, razões muito fúteis nas cassetes, já para não falar do porquê da presença da personagem principal masculina... Foi praticamente tortura psicológica para ele!
      Sim, o problema maior foi, sem dúvida, "poetizar" o suicídio. Como dizem em inglês, o autor "glorifies"/"romanticizes" o suicídio.
      Eu realmente não percebo como o número de opiniões positivas é tão grande. Ainda assim, já vi várias opiniões que tocam os mesmos pontos que nós falámos.
      Confesso que tinha curiosidade em relação ao livro quando veio para Portugal. Achava interessante o facto de não haver uma carta, mas sim cassetes. Mas só me apercebi o quão estava errada quando vi a série e li o livro. Pensava que as cassetes estavam a substituir o formato tradicional e, afinal, apenas foi mais uma arma para a tal "poetização" do suicídio...
      Mais uma vez, obrigada pelo comentário. Boas leituras!

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