domingo, 4 de fevereiro de 2018

Opinião: As Serviçais, de Kathryn Stockett


Estamos nos anos 60, na cidade de Jackson, Mississípi, Estados Unidos da América. Vive-se dias turbulentos, destacando-se a luta pelos Direitos Civis. Muitas pessoas aceitam o seu destino, outras desejam mudanças. É neste ambiente que se cria uma forte cumplicidade entre Skeeter, uma jovem branca sonhadora recentemente licenciada, Aibileen e Minny, duas empregadas negras que, lá no fundo, querem lutar por uma vida melhor. Skeeter, inspirada pela ternura da sua antiga empregada negra, Constantine, decide escrever um livro sobre as experiências, boas e/ou más, das mulheres negras como empregadas em casas de famílias brancas. Apesar da força de vontade, como irá este trio enfrentar uma cidade que respira ódio e indiferença?



Já tinha ouvido falar na adaptação cinematográfica deste romance de estreia de Stockett e de como é uma ótima forma de dar início (aliás, continuidade) à conversa sobre o racismo. Engana-se aquele que pensa que o racismo já não existe só porque as leis são para todos e devem ser respeitadas por todos. O racismo não tem a ver apenas com um sistema judicial, também tem a ver com a estrutura da sociedade. Vivemos numa sociedade em que ainda se julga uma pessoa de acordo com a sua pele. O racismo, muita vezes, é a base do bullying, do desrespeito, da violência. Em muitos casos, chega a provocar mortes. Como seres racionais, deveríamos ser melhores do que isso e deveríamos lutar contra o mal que é o racismo. E é isso que Stockett procura fazer através d'As Serviçais.



Imagem retirada do Pinterest.


Este romance parece narrar histórias verdadeiras, uma vez que a autora soube interligar factos históricos, como mortes de grandes ativistas negros, e experiências das personagens criadas por ela, como Aibileen e Minny. Temos, por um lado, Aibileen, uma mulher pacata que trabalha para uma família branca que ignora, quase por completo, a filha mais nova e vive muito de acordo com uma das mulheres mais racistas da cidade, Hilly Holbrook. Por outro lado, temos Minny, que tem uma língua afiada e, depois de ter sido despedida por desafiar a patroa, acaba por ir trabalhar na casa de uma mulher branca um pouco estranha. São elas as grandes figuras do livro de Skeeter, a jovem branca que não entende como as pessoas são capazes de verem os negros como sendo inferiores. Apesar de ela ser branca, Skeeter é uma personagem que nos ajuda a ver outros problemas baseados na diferença, mas, desta vez, na de género. Ela é constantemente "atacada" por não andar à procura de um futuro marido e por sonhar por um emprego importante em Nova Iorque em vez de aprender como ser uma boa dona de casa. Ela também é um exemplo das pessoas brancas que gostariam de ajudar na luta pela igualdade, mas viviam no perigo de serem descobertos e irem para a prisão por contestarem a autoridade.
São, então, personagens muito diferentes. Idades diferentes, cor de pele diferente, estatutos diferentes. Contudo, semelhantes na determinação, na capacidade de sonhar e na força. São um trio inspirador. São, ainda, os alicerces deste romance, ou seja, são os pontos fortes deste livro chocante.
Uma outra personagem que também merece destaque é Hilly Holbrook. Hilly é uma mulher branca que praticamente domina a vida social da cidade de Jackson. É extremamente racista e hipócrita, pois é ela que organiza eventos de caridade para ajudar crianças que passam fome em África, mas, ao mesmo tempo, acredita que os negros são pouco inteligentes e estão cheios de doenças que podem matar os brancos. É uma personagem irritante devido à sua ignorância, mas é tão importante como as outras já referidas, já que ela é a representação dos racistas, pessoas ignorantes e convencidas de que são superiores e que pensam que os outros devem viver de forma submissa.
Portanto, no geral, a autora fez um excelente trabalho na criação das personagens, pois tornou a sua mensagem muito mais forte, apelativa e real.

Imagens da adaptação cinematográfica d'As Serviçais (fonte: Pinterest).


A escrita é simples, mas tocante. É eficaz na transmissão de valores e de mensagens. Consegue prender o leitor à história. Além disso, como a história é narrada a três vozes, temos, então, uma escrita versátil, na medida em que essas mesmas vozes estão bem diferenciadas umas das outras. O problema está na edição ou na tradução. Ou o problema talvez esteja em ambas. Não li a versão original, mas acho que a tradução não está tão fiel à fonte como deveria. Além disso, a edição, mais concretamente a revisão do texto, apresenta muitas falhas. Aliás, muitos erros presentes neste livro deveriam ter sido evitados, pois são erros horríveis numa obra literária, como vírgulas entre o sujeito e o predicado, por exemplo. 
Apesar disso, Stockett tem muito talento, quer a nível formal, quer em relação à criação de linhas narrativas interessantes.


Em conclusão, As Serviçais é um livro inspirador que nos revolta por nos mostrar o lado feio do ser humano. No entanto, incentiva-nos a usar o lado bonito,o lado da bondade, da compreensão e do amor. Com personagens extremamente reais e diversificadas, uma escrita arrebatadora e mensagens fundamentais, vale a pena ler As Serviçais.


Classificação: 4.5/5 estrelas.



4 comentários:

  1. As Serviçais é um livro que tenho bastante curiosidade em ler desde que ouvi falar do tão aclamado filme. No entanto, tenho andado a evitar, em parte por ser um livro tão longo e em parte porque sei que vai mexer comigo. Depois da tua opinião vou, sem dúvida, acrescentá-lo à lista de livros a adquirir, acredito que me vá surpreender com a história.
    Boas leituras.
    - Mad (http://presa-nas-palavras.blogspot.pt/)

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    1. Fico contente por teres feito tal decisão graças à minha opinião. Espero que gostes!
      Boas leituras!

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  2. Olá!

    A seguir o teu blogue! Não conhecia ainda, gostei muito, parabéns!

    Beijinhos
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    1. Agradeço imenso pelo seu comentário e fico contente por ter gostado! Beijinhos.

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