sexta-feira, 30 de dezembro de 2016

Opinião: Viver depois de ti, de Jojo Moyes




Viver depois de ti (no original, Me Before You), de Jojo Moyes, é um romance contemporâneo que aborda temas controversos, mas importantes, como a eutanásia. É um livro que ensina que há mais na vida do que a doença ou uma deficiência, mas também é necessário reconhecermos que nem tudo pode ser um mar de rosas, mesmo que o amor esteja presente nas nossas vidas. Mostra, ainda, que não faz mal sermos pessoas pacatas, mas deveremos, ainda assim, explorar o que nos rodeia. É, então, um romance que mostras as injustiças que podemos enfrentar ao longo da vida, embora também mostre que haverá sempre uma luz no fundo do túnel, mesmo que essa luz não seja o que nós esperávamos alcançar.


O enredo foi muito bem desenvolvido ao longo das páginas. No início, vemos como uma das personagens, Will, acabou por ficar paraplégico. De seguida, mudamos imediatamente de perspetiva e foca-se na outra personagem principal, Louisa, que, ao procurar por um novo emprego, vai parar à casa de Will, onde ela é contratada para cuidar dele. Louisa sempre soube que seria uma experiência complicada, mas decidiu aceitar o emprego na mesma, pois pensava que iria ser gratificante. No entanto, reparamos logo nas disparidades entre duas personalidades tão distintas. Por um lado, temos Will, que se sente frustrado por se sentir preso no seu próprio corpo, por outro temos Louisa, que é desajeitada e tenta sempre ver o lado positivo da vida. A jovem, sempre muito esperançosa, tenta animar Will, organizando programas com atividades ideias para ele, mas Will não tem vontade nenhuma. E é aí que o leitor começa a sentir a mensagem do livro a entrar no seu coração. A autora, neste livro, decidiu mostrar que a eutanásia não é uma decisão tomada de ânimo leve, mas, por vezes, acaba por ser a "melhor" solução, na medida em que o paciente sente que já não está a viver e apenas sente dor. Portanto, não seria melhor ouvir a outra pessoa, aquela que está mesmo a sofrer? Ainda assim... Será que é melhor desistir? Não há esperança? Já não vale a pena lutar se a pessoa em questão já não quiser viver? Louisa fica destroçada ao saber da decisão de Will e faz tudo por tudo para mostrar que a vida dele ainda não acabou. Contudo, será que ela deveria ignorar o que Will realmente quer?


Resultado de imagem para Me Before You gifs
Emilia Clarke como Louisa Clark.

A eutanásia foi, é e sempre será um tema complicado. Muitos defendem que a vida é sagrada e que o ser humano não deveria agir como uma entidade divina. Outros dizem que ainda pode haver felicidade e esperança numa vida limitada. E alguns dizem que, realmente, se a pessoa está a sofrer e sente-se presa, talvez seria melhor reconsiderar a morte como o fim da dor. Deste modo, como sabemos o que será o mais correto? Vale mesmo a pena ouvir somente a opinião daqueles que estão a sofrer? Não estarão eles a serem egoístas? Eu não gosto de pensar assim, até porque esta decisão não é tomada de ânimo leve, como já referi. A pessoa simplesmente sente-se cansada. Moyes retratou bem essa situação. Will era independente, tinha um espírito rebelde e amava a vida, porém, sente-se vazio por estar preso a uma cadeira de rodas. Por sua vez, a autora também fez um excelente trabalho ao criar a perspetiva de quem vive a situação externamente, como Louisa e a família de Will. O pai dele acaba por, de certa forma, aceitar a decisão do filho, mas a mãe, a irmã e Louisa tentam sempre mostrar que a morte não é a resposta. Todavia, Will não quer viver mais. Sente-se saturado e, apesar de amar a sua família e, eventualmente, Louisa, ele já não aguenta mais. É claro que, neste caso, o leitor pensa que o livro tem uma mensagem negativa, ou seja, que, afinal, o amor não ultrapassa qualquer obstáculo, mas também entende que, por vezes, não há explicações possíveis ou armas suficientes para usarmos na luta que é a vida.


Resultado de imagem para Me Before You gifs
Sam Claflin como Will Traynor e Emilia Clarke como Louisa Clark


Mas nem tudo é negro neste livro. Will pode já não querer viver mais, mas quer ver Louisa a ser mais rebelde. Louisa pode ter uma personalidade peculiar e estranha, mas é muito pacata. Talvez seja ela a pessoa que não está realmente a viver. Will, nos seus últimos meses de vida, decide mostrar que Louisa ainda pode brilhar. E a magia do livro centra-se nisso mesmo: um homem que perdeu a esperança na vida e quer mostrar a outra pessoa que a vida pode ser bela. É por isso que Will decide recorrer à eutanásia. Ele está contente com a vida que teve e não quer manchar a sua existência por causa da sua dependência física. Para uma pessoa que não se sinta limitada, a decisão de Will pode parecer catastrófica, mas será mesmo? Afinal, quem sabe realmente o que é melhor para a nossa própria vida? Will teve uma boa vida e Louisa ainda não viveu o suficiente. Ambos aprendem muito um com o outro e chegam a uma conclusão: sim, a vida pode ser bonita e alegre, mas também pode fazer-nos sofrer. No entanto, no fim, tudo vale a pena.



Para não me alongar mais, quero só dizer que a escrita da autora é simples e leve e, por isso, ideal para abordar um tema tão sensível e complicado como a eutanásia. Porém, apesar da escrita e do tema debatido de forma cuidada, acabei a leitura sem lágrimas. Eu senti o que as personagens sentiram, mas ainda faltou qualquer coisa. Como disse, o tema foi, de facto, debatido, mas não tanto quanto queria. Mas entendo que a autora se tenha centrado mais nos modos de vida de cada personagem e não apenas no assunto em si. Aliás, ao termos duas perspetivas diferentes, temos uma história mais rica que nos poderá fazer refletir mais e a mensagem está lá na mesa.


Concluindo, Viver depois de ti vai mexer com a alma de qualquer leitor e fá-lo-á pensar. O melhor a fazer é viver a vida ao máximo, mas também seria bom ouvirmos a opinião do outro, pois cada um sabe como encara a vida. 


Resultado de imagem para Me Before You gifs
Gif com cenas da adaptação cinematográfica do romance de Jojo Moyes.

Classificação: 4/5 estrelas



2 comentários:

  1. Não li o livro, mas fui ao cinema ver a estreia do filme baseado neste livro e confesso que mexeu comigo e muito. Realmente não deve ser nada fácil para uma pessoa que anda, corre, pula, nada...ver-se confinado a uma cadeira de rodas. Adorei tanto o filme que aluguei o mesmo ontem no videoclube da nós e claro, já chorei novamente. Bj Daniela.

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. O filme ficou muito bom. Também gostei imenso e chorei um pouco. Beijinhos :)

      Eliminar