sábado, 31 de dezembro de 2016

Opinião: Prantos, amores e outros desvarios, de Teolinda Gersão

Fotografia tirada num dia de intenso estudo focado na Sintaxe e Semântica do Português.


Prantos, amores e outros desvarios é uma antologia de Teolinda Gersão que foi publicada este ano, em outubro. Comprei-o porque iria ser feita uma apresentação deste livro cá, em São Miguel, mas acabei por não ir conhecer a autora, pois nesse dia estava esgotada devido à intensidade da vida universitária. Tive pena de não ir, mas li o livro na mesma, claro, e gostei muito da experiência.

O livro tem, ao todo, 14 contos sobre angústias, paixões, loucuras, desgostos, ou seja, tem muitos "prantos, amores e outros desvarios" à mistura.

Para facilitar a escrita da minha opinião, irei falar um pouco sobre cada conto de forma sucinta, até porque, quando falamos em contos, temos que ter cuidado para não dizermos tudo o que se passa na história.


1º conto- "Pranto e riso da noiva assassina": Como entrada desta "refeição" literária deliciosa, temos um conto sobre a morte de um homem provocada pela própria esposa. Ou talvez não? É uma história sobre a impossibilidade de o ser humano controlar o seu próprio destino e sobre a vida como uma inconstante. Retrata, ainda, a insanidade da mulher que, por se sentir frustrada por viver um casamento sem amor, diz ter assassinado o marido. Acabamos por sentir compaixão por ela, mas sabemos que o que ela fez (ou não?) não é o mais correto, mesmo que ela se sinta muito infeliz. É, então, um conto sobre um desvario. 
Classificação: 4/5 estrelas.


2º conto- "Pranto da mãe mentirosa": É-nos apresentada uma mãe que se encontra desesperada ao ver um filho doente e pede a Nossa Senhora que o cure, dizendo que, em troca, daria uma cabra em sua honra. No entanto, ela acaba por não dar nada e o filho morre. É um conto sobre as injustiças e a fragilidade da vida,  e o amor materno, mas também sobre a esperança. É um dos meus contos favoritos, pois tocou-me imenso. É um conto humilde e cheio de dor.
Classificação: 5/5 estrelas.


3º conto- "As mimosas": As mimosas, ou acácias, são árvores que, neste conto, têm um caráter simbólico, por serem bonitas, mas, ao mesmo tempo, eram como uma "ameaça", pois invadiam a casa onde se encontrava Luísa, a personagem principal. É-nos dada a conhecer a vida complicada de Luísa, que tem uma mãe acamada e, por isso, passa grande parte do seu tempo com ela. É uma mulher que, apesar de sentir pena da mãe e querer ajudá-la, sente-se presa a ela. No entanto, rapidamente mudamos de perspetiva, mas não posso contar mais, porque este conto acaba por ser especial por causa dessa mudança repentina. Posso dizer que retrata muito bem a velhice, na medida em que muitos filhos se sentem presos aos seus pais, mas sabem que eles não têm culpa. Pretende-se mostrar que a velhice pode ser triste se a virmos apenas como uma carga de trabalhos. Temos que valorizar os mais velhos, pois, um dia, já cuidaram de nós.
Classificação: 4/5 estrelas.


4º conto- "Detrás dos sonhos": Esta pequena história retrata os problemas que podem ocorrer num matrimónio. Um elemento do casal vive alienado, não dá atenção ao outro e o outro procura amor e refúgio noutro sítio. Ainda assim, o segundo elemento sente pena por ver o amor a desvanecer. Mostras-nos que deveremos dar valor à realidade e não apenas aos sonhos. Também percebemos que, por vezes, é melhor deixarmos o outro partir para não magoarmos a nós mesmos. Por vezes, isso não faz mal, são coisas da vida.
Classificação: 4/5 estrelas.


5º conto- "O meu semelhante": É sobre uma mulher que justifica as suas ações e decisões dizendo que tem uma vida complicada e, por isso, não pode ajudar os outros. É uma história que mostra a sociedade em que nós vivemos. Olhamos demasiado para o nosso umbigo e acabamos por ser rudes e egocêntricos ao vermos o outro em apuros. A lição retirada daqui é que deveríamos viver numa sociedade cujos alicerces deveriam ser a entreajuda e a solidariedade, por exemplo.
Classificação: 4/5 estrelas.


6º conto- "Jogo Bravo": Temos aqui um conto interessante, pois é feita uma comparação entre o ato sexual e um jogo de futebol. Apesar de ter sido estranho para mim ler algo deste género, e também porque foi um tema e uma abordagem inesperados, é um conto que tem a sua graça.
Classificação: 4/5 estrelas.


7º conto- "Uma tarde de Verão": Temos o reencontro de dois ex-amantes, ambos seguiram com as suas vidas, mas sofreram ao longo dos anos. Por um lado, temos uma pessoa que gostaria de reatar a relação, mas por outro temos alguém que prefere não voltar ao passado. É um conto que nos mostra as vicissitudes da vida, isto é, somos seres dependentes da mudança e não faz mal querer continuar a olhar para o passado; porém, não nos podemos esquecer do presente e daquilo que aprendemos com os erros passados.
Classificação: 4/5 estrelas.


8º conto- "Mal-entendidos": Mais uma vez, temos um retrato de como a velhice pode afetar uma família. Neste caso, temos um filho que sempre teve uma relação distante com a mãe, que não o apoiava muito. Mesmo assim, ele ama a mãe e tenta ajudá-la. Contudo, ela não facilita e o estado dela não é a desculpa. É simplesmente a maneira de ser dela. Apesar do assunto representado, foi um dos contos que menos mexeu comigo.
Classificação: 3.5/5 estrelas.


9º conto- "Vizinhas": Este conto comoveu, pois fala de duas vizinhas que tinham laços de amizade muito fortes na juventude, mas tudo mudou quando cada uma constitui a sua própria família. Mas o destino é traquinas e juntou-as novamente na velhice. Ela sentem-se como um fardo para as suas famílias e decidem que o melhor é deixar o mundo, mas juntas. Comoveu-me não só pelo seu caráter triste, mas também porque mostra que a amizade, quando é verdadeira, dura para sempre.
Classificação: 4.5/5 estrelas.


10º conto- "A mulher cabra e a mulher peixe": Aqui temos mais uma história estranha. É narrada por um homem já vivido que, pelos vistos, conta a sua experiência com mulheres a um rapaz. O homem diz que só dois tipos de mulheres é que se destacaram ao longo da vida dele, a mulher cabra e a mulher peixe, e ele explica porque é que as chama assim e faz comparações entre elas. Acaba por ser um conto machista, mas ainda bem que o é, para mostrar como o machismo é que mancha a figura das mulheres e não as próprias mulheres.
Classificação: 3.5/5 estrelas


11º conto- "Água-marinha": Temos outra vez uma mulher com idade um pouco avançada, mas a história não se centra tanto no facto de ela ser idosa. Ela recebe na sua casa um homem que lhe quer entregar um anel que o pai dele tinha consigo. O pai, antes de falecer, pediu-lhe que ele entregasse o anel, o água-marinha, à dona legítima. Depois temos a mulher a falar no anel que, apesar de ter sido barato, o que importou foi que ele simbolizava a beleza do amor entre duas pessoas que viviam o auge da sua juventude. É um conto enternecedor.
Classificação: 4.5/5 estrelas.


12º conto- "Décimo Mandamento": É um conto que retrata a religião vivida de forma extrema. É-nos apresentado um homem que reza muito e castiga-se a si próprio por cometer pecados, mas continua a cometê-los na mesma. Retrata a hipocrisia e a ganância, pois o homem, que é rico, acaba por invejar um mendigo que saboreia alegremente uma costeleta. O rico acaba por, de certa forma, sentir-se invejoso do pobre. Aliás, o décimo mandamento é "não cobiçarás coisas alheias" e ele foi bem reformulado neste conto.
Classificação: 4/5 estrelas.


13º conto- "Enredos": Aqui está um conto que caracteriza bem o povo português, ou, pelo menos, uma parte dele: as pessoas que parecem ter como sustento os enredos. Vemos como a ignorância e o preconceito podem afetar negativamente uma pessoa, na medida em que ela só pensa nos pontos negativos dos outros e só gostar de falar mal dos outros. 
Classificação: 3.5/5 estrelas.

14º conto- "Alice in Thunderland": Este é o meu favorito, pois aborda um lado diferente da verdadeira inspiração de Lewis Carroll (pseudónimo do reverendo anglicano britânico Charles Lutwidge Dodgson) ao escrever Alice's Adventures in Wonderland. Sabe-se que Dodgson tinha atitudes pedófilas e escreveu a história anteriormente mencionada tendo como inspiração uma menina de 11 anos, Alice Lindell. O pior disto tudo é que parece que toda a gente prefere fingir que a obra foi escrita de forma inocente e que nada aconteceu à criança. No entanto, este conto pretende mostrar a verdade nua e crua acerca de Lewis Caroll. Mas não se centra na figura dele, dando importância a Alice. Temos uma perspetiva triste e forte da vítima, uma criança que não percebia o que acontecia sempre que se encontrava com o reverendo, uma jovem que se sentia nojo de si própria, uma mulher que viveu toda a sua vida sabendo que tinha sido a inspiração para um homem doentio e perverso. É, para mim, o conto mais triste e mais realista desta antologia e surpreendeu-me e tocou-me profundamente. Infelizmente, são muitas as crianças que passam por estas situações graves e acabam por ter uma autoestima extremamente baixa e praticamente inexistente, pois pensam que não merecem ser amadas e sentem nojo de si próprias. É um conto que deve ser lido por todos e que nos faz entender que, muitas vezes, a vítima, com uma vida destruída, vê que o culpado nem sempre é visto como um criminoso pela sociedade. É como se o mundo dissesse que a vítima é que cometeu um erro e não a pessoa doentia.
Classificação: 5/5 estrelas. Um conto poderoso.


Em suma, Prantos, amores e desvarios é uma antologia repleta de grandes e valiosas lições de vida e contém histórias muito comoventes. A escrita é simples e cativante, mas também muito madura. Espero ler mais livros de Teolinda Gersão em breve.


Classificação geral: 4/5 estrelas.







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