terça-feira, 22 de novembro de 2016

Opinião: A Quimera de Praga, de Laini Taylor





A Quimera de Praga (título original: Daughter of Smoke and Bone) é o primeiro livro da trilogia de Fantasia Entre Mundos (o título original da trilogia é o mesmo que o título do primeiro volume), de Laini Taylor. Neste primeiro capítulo, a personagem principal, Karou, é introduzida como uma jovem estudante de arte que aparenta ter uma vida relativamente normal em Praga, capital da República Checa. Muitos pensam que os seus cadernos recheados de desenhos de criaturas espantosas e estranhas são fruto da imaginação dela, mas o que eles não sabem é que Karou tem uma vida que é tudo, menos normal. As criaturas que ela desenha, as Quimeras, existem mesmo e são a família adotiva dela. Apesar de eles serem seres híbridos (misturas de partes humanas e partes animais), Karou ama-os e respeita-os imenso, principalmente Brimstone, o dono da loja onde vive a família de Quimeras. A jovem realiza várias demandas em nome de Brimstone (apesar de não saber praticamente nada sobre o mundo destas criaturas)  e, uma vez, ao regressar de uma das suas muitas viagens em busca de dentes de animais para serem vendidos na loja, Karou percebe que algo de errado se passa quando vê uma marca de mão queimada na porta da loja. A partir daí, a sua vida mudou por completo.

Fanart retirada do Tumblr. Aqui podem ver Karou e Brimstone.


Muitos dirão que, pela sinopse, a história não parece ser muito original. Afinal, há muitos livros de Fantasia sobre criaturas esquisitas que conhecem uma pessoa perfeitamente normal que irá mudar, de alguma forma, o mundo delas. No entanto, isso não acontece aqui. Neste romance de estreia de Taylor, temos uma vastidão de seres surpreendentes e fascinantes que apresentam detalhes assombrosos. A autora criou um mundo extremamente original e excecional que tem uma certa aura mística, lendária. É um ambiente em que, por um lado, temos humanos que não se apercebem da existência desta outra realidade mágica e, por outro lado, temos um mundo no qual vivem dois grupos distintos e rivais, as Quimeras e os Serafins, que, desde há muito tempo, travam uma guerra violenta e sangrenta, na qual a magia que cada grupo possui (que não tem nada a ver com varinhas ou sombras coloridas que saem das mãos) deve ser usada de forma responsável. As Quimeras e os poderes mágicos que elas possuem são, para mim, os aspetos mais interessantes de toda a obra e deixaram-me deslumbrada. Por isso, penso que o ponto forte deste romance Fantástico é a construção deste mundo mágico que, certamente, irá surpreender o leitor.



Mas a construção tão bem realizada deste mundo fabuloso não teria sido possível sem a escrita de Laini Taylor, que combina muito bem com o universo criado. Atrevo-me a dizer que a autora tem um estilo levemente poético, que lhe permite elaborar descrições ricas em detalhes deliciosos. Mesmo nos momentos de maior tensão, o estilo dela faz-nos refletir sobre o que é ser-se humano e como é que as ações nos podem definir. Faz-nos ler, ler, ler e ansiar por mais. A sua escrita é cativante e tocante e permite-nos ir mais longe na nossa imaginação.


Por fim, temos as personagens que, apesar de terem personalidades muito distintas e de serem capazes de nos seduzirem pelos seus mistérios e segredos, ficaram um pouco aquém das expetativas. Karou, a protagonista, foi muito bem esboçada, na medida em que ela tem bom humor, é enigmática (devido aos seus desenhos peculiares, ao seu cabelo azul e às bugigangas estranhas que lhe ornamentam) e tem, de facto, uma alma de artista, ou seja, ela vive intensamente através do desenho. Contudo, ela também tem um lado mais irritante, por ser muito "senhora do seu nariz" e querer fazer tudo à sua maneira, mas é isso que lhe confere complexidade e autenticidade. Já Akiva, um Serafim pelo qual ela se apaixona, não foi tão bem explorado como a protagonista, já que, no subplano da história (a relação amorosa repentina entre ele e Karou) acabou por ofuscar o anjo como personagem. Ainda assim, nem tudo está perdido, pois ainda há muito por desvendar em relação a Akiva. As poucas Quimeras que fizeram parte do enredo, como Brimstone, também poderiam ter aparecido mais, mas, mesmo assim, gostei dos poucos momentos de intervenção destas criaturas fenomenais. Assim sendo, acredito que Taylor irá deixar estas personagens brilharem mais nos próximos volumes, até porque é normal ficarmos com a ideia de que o primeiro livro carece de alguma coisa.


Fanart.


Concluindo, aconselho a leitura deste primeiro capítulo de uma trilogia que promete arrebatar o coração dos leitores de imaginação mais fértil. É um primeiro volume repleto de magia, emoção, mágoa e esperança, bem como de criaturas deslumbrantes. Espero ler o segundo livro em breve.


Classificação: 4.5/5 estrelas







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