quinta-feira, 10 de maio de 2018

Opinião: Fangirl, de Rainbow Rowell


Fangirl, de Rainbow Rowell, centra-se em Cath, uma rapariga de 18 anos que inicia uma nova etapa na sua vida como adulta, a Universidade. Contudo, ela não quer deixar para trás um amor de infância: uma coleção de livros de Fantasia que se foca em Simon Snow e nas suas peripécias como mágico. Cath escreve fan fiction, ou seja, histórias criadas por fãs que querem alargar e/ou alterar o universo de um livro, de uma série televisiva ou de um filme. Parece ser algo inofensivo, mas a sua vida é demasiado "controlada" pela ficção. Além disso, ela também não sabe interagir com os outros, sofre de ansiedade e não acredita em si própria quando escreve outros textos para além de fan fiction. Portanto, como irá ela lidar com o afastamento da irmã, os problemas do pai e o aparecimento de Levi, um rapaz sorridente e extrovertido? Como irá ela lidar com a Universidade? Será ela capaz de encontrar um equilíbrio entre a realidade e a ficção?


Fangirl é um romance engraçado, razoavelmente leve (digo isto assim, pois aborda assuntos importantes, mas de forma simples) e ternurento. É, ainda, uma homenagem aos fãs, que são fundamentais não só para o sucesso de um livro, de uma série ou de um filme, como também expandem os horizontes dos mesmos. Como romance contemporâneo para Jovens-Adultos, Fangirl apresenta personagens jovens, mas quase adultas, credíveis e, com as quais, os mais novos se podem identificar. De facto, é um livro genuíno e quase perfeito. Digo quase perfeito, pois penso que certos temas não foram bem retratados. Ainda assim, mostra como é importante o equilíbrio entre a ficção e a realidade, isto é, é bom ler para nos afastarmos da realidade e, também, para aprendermos algo acerca dela através da imaginação. No entanto, também é importante ter os pés bem assentes na terra.

Fangirl by Rainbow Rowell
Fanart (fonte: Pinterest).

O enredo é muito simples, mas, se pensarmos bem, contém personagens e situações que não estão muito presentes na literatura contemporânea para os Jovens-Adultos (falo em relação ao mercado português). Por exemplo, temos a presença de personagens que sofrem de ansiedade, de depressão e de dislexia, bem como problemas com o álcool. Apesar de ser bom haver personagens que apresentam estas condições, não gostei muito da forma como elas foram tratadas. Foram tratadas de forma demasiado leviana ou, então, não houve uma pesquisa profunda relativamente a estas situações. Mas, agora, vou falar dos aspetos positivos.
Como há tantas personagens femininas, seria de esperar muitas cenas de rivalidade entre elas. No entanto, em relação a isso, este livro inova. Não quer dizer que as personagens femininas não tenham as suas discussões, mas, pelo menos, não servem para enaltecer as personagens masculinas e enfraquecer as femininas. Servem para mostrar que qualquer pessoa pode ter problemas com qualquer pessoa e que tudo pode ser resolvido através do diálogo e do esforço em perceber o outro. Deste modo, é bom ver um livro que não se foca em conflitos desnecessários entre raparigas devido a relações amorosas.
Um outro aspeto bom, e que é algo não muito frequente nos livros para Jovens-Adultos, é a presença da família. Já li muitos livros YA (Young-Adults, ou seja Jovens-Adultos) em que os pais ou outros elementos familiares existem, mas são mencionados apenas uma ou duas vezes e parecem não fazer parte da educação ou da vida das personagens mais novas. Neste caso, há um pai, que tem problemas do foro da saúde mental, mas não é menos pai por isso. De facto, mostra que a saúde mental deve ser levada a sério e que não é uma vergonha, nem sinal de fraqueza ou de incapacidade. Há, ainda, uma mãe que abandonou a sua família e que, anos depois, gostaria de entrar em contacto com as filhas. Também é uma situação rara neste tipo de histórias e, embora tenha sido tratada de forma rápida neste livro, mostra que Rainbow Rowell tinha a intenção de inovar o panorama dos romances para Jovens-Adultos ao incluir personagens e situações diferentes e realistas.


Relativamente à escrita, esta é simples, mas extremamente viciante. Repleta de humor, mas também de seriedade, permite que o livro tenha uma essência muito familiar, sendo capaz de cativar qualquer leitor. Faz-nos devorar páginas e mais páginas. Rainbow Rowell tem mesmo um dom. É uma escrita que parece ser muito natural e, assim, faz-nos apaixonar também pela história. Deste modo, a forma como Rowell escreve e a forma como cria enredos funcionam muito bem em conjunto.

Quanto às personagens, e como puderam ver nos parágrafos anteriores, elas são muito diversificadas e há de tudo um pouco para todos os leitores. Temos Cath, tímida, ansiosa, pouco destemida, mas querida e persistente, que adora escrever, falar sobre ficção e que tenta ajudar os outros. Temos Levi, um rapaz extremamente simpático, carinhoso e resiliente, que não permite que as adversidades da vida o façam desistir. Gostei muito da relação entre Cath e Levi, pois não é muito comum vermos a rapariga ser aquela que elogia mais a pessoa com quem namora. Também dá muitos mimos ao Levi e isso, certamente, deixará muitos leitores felizes. Depois, temos Wren, a irmã de Cath, e Reagan, a companheira de quarto de Cath, que são espíritos livres e que, de facto, passam por momentos menos bons, mas aprendem com os seus erros. Podem não mostrar os seus sentimentos, mas, lá no fundo, gostam dos seus amigos. Também quero destacar o pai da Cath e da Wren, que, apesar dos seus problemas, esforça-se sempre em ser um melhor pai.


Fangirl by Rainbow Rowell
Fanart (fonte: Pinterest).
Depois de tudo isto, podem ver que Fangirl não é apenas mais um livro sobre uma rapariga peculiar que se apaixona por um rapaz e, assim, a história não passa disso. Não, ainda bem que este livro é muito mais do que isso. O enredo tem muitos fios condutores interessantes. É verdade que, como mostrei, nem todos foram bem explorados, mas é um livro diferente por tentar ser mais realista e por ter uma escrita agradável e cativante. Deixa-nos a sorrir e faz-nos pedir por mais.



Classificação: 4/5 estrelas.








sábado, 5 de maio de 2018

Opinião: O Coração de Simon Contra o Mundo, de Becky Albertalli



O coração de Simon conta o mundo, de Becky Albertalli, é um romance contemporâneo para Jovens-Adultos. Dá-nos a conhecer Simon, um estudante do ensino secundário que tem um segredo: ele é gay. Só uma pessoa é que sabe disso, um rapaz conhecido por Blue, por quem Simon se apaixona ao trocar com ele imensos emails amorosos e engraçados. Todavia, um dia, Simon deixa a sua conta ligada num computador da escola e um colega descobre e ameaça-o revelar o seu segredo em troca de um favor. Irá Simon sair derrotado desta situação ou irá ele finalmente conseguir mostrar ao mundo quem ele realmente é?



Um dos livros mais adoráveis de sempre! Um romance com uma escrita tão simples, mas tão fascinante, entusiasmante e divertida, que pretende mostrar que o amor não ocorre apenas entre um homem e uma mulher e, por isso, também pretende mostrar o quão normal é o amor entre pessoas do mesmo sexo. Faz abrir os olhos a quem não aceita as diversas e infinitas facetas do amor e faz-nos sentir felizes por ser uma história tão inocente e tão cativante.


Como qualquer romance YA  (Young-Adult: Jovem-Adulto) contemporâneo, o enredo tem alguns clichés. Contudo, penso que é uma boa forma de se mostrar que, independentemente do género e/ou da identificação sexual, o amor é amor. O livro apresenta dramas típicos da adolescência, discussões entre amigos e familiares, festas, dúvidas, momentos embaraçosos e muito mais, tal como em qualquer outro romance YA. Ainda assim, é uma história diferente graças às personagens, que parecem ser tão reais ao ponto de, no final, acharmos que são amigos nossos. Normalmente, os clichés são mal vistos. Costumam ser situações ou ideias que são usadas tantas vezes  que não trazem originalidade à história, mas isso não acontece no livro de Albertalli. Ela renova-os ao ponto de eles não parecerem ser clichés. 
A história desenrola-se num bom ritmo, nem muito devagar, nem muito depressa. Foi elaborada de forma muito organizada, mas transmite a sensação de que foi construída de forma fluída e natural. Não há nenhum ponto solto e todas as personagens, principais ou não, desempenham um papel importante, principalmente quanto a um livro que pretende mostrar que as pessoas LGBTQ+ são, obviamente, pessoas.
É uma história engraçada e agradável. Adorei as referências à cultura pop, ou seja, a livros como Harry Potter, a programas televisivos, etc. Adorei como a personagem principal, Simon, está envolvida no teatro da escola. Adorei as tais dúvidas típicas da adolescência. Mas também é uma história que deve ser levada a sério. Muitas pessoas morrem, porque a sociedade não as aceita tal como elas são. Muitos morrem, porque a sociedade diz que não devem ser gays. Muitos morrem, porque a sociedade diz que não devem ser transsexuais. Muitos morrem devido à cor da sua pele. Portanto, um romance como O Coração de Simon Contra o Mundo é fundamental no nosso tempo. Mostra que a sociedade está errada ao não aceitar essas diferenças. Gosto de dizer que somos todos iguais por sermos todos diferentes.





"Simon vs. the Homo Sapiens agenda"   <3
Fanart (fonte: Pinterest).
E não é que a escrita é tão boa quanto ao enredo? Aliás, grande parte da magia do livro reside na escrita de Becky Albertalli. A naturalidade e a simplicidade do seu estilo são incríveis. É uma escrita sincera numa história sobre segredos e máscaras. É uma escrita fresca e leve. Distrai-nos do mundo que nos rodeia e faz-nos saborear facilmente o enredo.


Mais um ponto positivo em relação a esta linda história: as personagens. Autênticas como a escrita, mas não quer dizer que sejam perfeitas. Há muitas pessoas que pensam que a literatura deveria ter personagens perfeitas, na medida em que elas deveriam ser um exemplo para as pessoas. No entanto, não concordo com essa ideia, que considero estapafúrdia. As personagens, no caso de serem pessoas, devem ser, então, humanas. Nós, como humanos, temos imperfeições. Simon pode ser muito simpático, divertido e adorável por ser um pouco socialmente estranho, mas também julga os outros e faz uma asneira ou outra. Ele é o exemplo de que é possível gostarmos de personagens imperfeitas. Também gostaria de dizer que não se dá apenas relevo a uma personagem gay. Há também uma personagem bissexual. Há também uma personagem negra. Como Simon se apaixona, há também mais uma personagem gay. Portanto, é magnífico ver as minorias representadas. É como Blue diz: "É definitivamente irritante que hétero (e branco, já agora) seja a norma, e que as únicas pessoas que têm de pensar na sua identidade sejam as que não encaixam no molde".

Fanart (fonte: Pinterest).



Concluindo, O Coração de Simon Contra o Mundo é para toda a gente, mas principalmente para aqueles que, até agora, não tinham ninguém como eles na ficção. Mostra que ser gay não é erro nenhum, que é uma diferença que, infelizmente, a sociedade, no geral, não aceita ainda. Mas é uma história sobre o amor, a amizade e a esperança. O amor e a amizade são importantes para que a esperança por um mundo melhor permaneça, para que depois essa esperança passe a ser uma realidade que possamos viver. É um livro adorável, que nos faz sorrir e que contém personagens incríveis e verossímeis. Aconselho a 100% a leitura deste livro.



Classificação: 4.5/5 estrelas.


quinta-feira, 5 de abril de 2018

Opinião: Por Treze Razões, de Jay Asher


Por Treze Razões, de Jay Asher, é um romance YA (Young Adults: Jovens Adultos) contemporâneo que nos apresenta Clay após a notícia do suicídio de uma rapariga que andava a escola dele, Hannah. Um dia, ao chegar a casa, repara numa caixa com cassetes lá dentro. Depois de a abrir e ouvir a primeira cassete, a vida de Clay muda para sempre.

Este livro tinha todo os ingredientes para ser um romance excelente para os mais jovens. Poderia ter tido uma abordagem cuidadosa e frutífera relativamente a assuntos extremamente sensíveis, como o suicídio, o assédio sexual, entre outros. No entanto, a receita foi terrivelmente executada e o produto final foi um desastre.

O pior foi o facto de o suicídio ter sido construído como uma caça ao tesouro, mas esse tesouro era uma vingança doentia. As 13 razões do suicídio de Hannah correspondem a 13 pessoas e algumas delas não fizeram atos grandiosamente maus para alguém cometer suicídio. Ou seja, o suicídio na adolescência, aqui, é tratado como um jogo, uma anedota. É como uma forma de criar um livro que "pica", isto é, que mexa com o leitor. Quanto a mim, não me fez sentir nada para além de raiva e de desilusão.
Um outro aspeto péssimo é o facto de o narrador, Clay, estar sempre a culpar Hannah por se ter suicidado. É um livro horroroso também nesse aspeto, por culpar as vítimas e por acentuar ainda mais a "perfeição" masculina quando, na realidade, praticamente todas as personagens masculinas deste livro são exemplos das consequências da masculinidade tóxica (não, não estou a dizer que ser homem é mau; procurem pela expressão no Google e entenderão), que afeta a nossa sociedade.

Eu pensava que este livro iria ser como uma chamada de atenção. Iria "ensinar", através da ficção, como devemos lidar com uma morte por suicídio. Como devemos lidar com vítimas, com as pessoas afetadas por uma tragédia como esta. Mas este livro é praticamente tudo o que não se deve fazer.

Agora, quanto a aspetos literários, não é muito melhor. Escrita demasiado simples para os assuntos abordados e a construção da narrativa, como já devem ter reparado, é péssima, bem como a construção das personagens. Escrever uma pessoa com imperfeições (ou seja, qualquer ser humano) é muito diferente de escrever personagens sem pés nem cabeça, ou seja, sem profundidade psicológica. São demasiado vazias para os assuntos em questão.

Para quem pensava que Por Treze Razões poderia ser uma ótima forma para um leitor mais novo poder entrar em contacto com estes temas pesados, por favor, procurem outro romance. Este livro é uma ofensa.
O suicídio não é uma brincadeira. O suicídio não é um jogo. O suicídio não é uma forma de vingança. O suicídio não é algo que deva ser discutido da maneira como o autor fez neste livro, como se fosse uma tolice de adolescentes.
Não leiam este livro.

Classificação: 0 estrelas.

terça-feira, 3 de abril de 2018

Opinião: A Darker Shade of Magic (Shade of Magic #1), de V.E. Schwab



A Darker Shade of Magic (na edição portuguesa, Uma Magia Mais Escura), de V.E. Schwab, é o primeiro capítulo de uma coleção de Fantasia repleta de viagens a mundos paralelos, magia e emoções fortes. Seguimos as aventuras de Kell, um jovem Antari (alguém capaz de viajar entre mundos paralelos) que se mete em problemas sem querer, e Delilah, uma rapariga destemida que deseja ser uma pirata e viver a vida ao máximo. Quando os dois se conhecem, por acaso, o perigo aumenta nos mundos paralelos e o mistério acentua-se.  Como irão eles salvar não um, mas três mundos diferentes?


Edição portuguesa.


Já vim um bom número de filmes baseados em viagens a mundos paralelos, mas acho que nunca tinha lido um livro com este elemento. E ainda bem que este livro de Schwab foi a minha primeira experiência, pois foi sensacional.
É incrível tanto a forma de transporte, como os mundos em si. De facto, é preciso ter magia nas veias para viajar, mas também é necessário um casaco mágico que se adapte de acordo com os mundos visitados. Quanto aos mundos, existem 3, mas, outrora, eram 4. Todos eles são Londres, mas uma das personagens principais, Kell, distingue-os através das cores: temos a Londres Vermelha (onde ele vive e onde a magia existe de forma amenizada), a Londres Branca (dominada por dois irmãos tiranos poderosos), a Londres Cinzenta (onde vive a outra personagem principal, Delilah, e onde não há magia), e a Londres Negra (que foi destruída devido à magia, que é algo vivo neste mundo criado por Schwab). Como podem ver, este universo mágico foi criado de forma cativante e apela à imaginação do leitor.


LITTLE FISTS  : READ IN 2016 »  A DARKER SHADE OF MAGIC and A...
Fanart. Fonte: Pinterest.


O enredo foi também bem executado. Lá no fundo, é simples, mas faz-nos querer ler mais. Há momentos parados, principalmente na primeira metade do livro. Todavia, isso é normal quando se trata de Fantasia, pois é necessário explicar o mundo em questão. Os momentos com mais ação são estimulantes e cinematográficos. 

Tudo isto é possível graças à escrita de V.E. Schwab. É um estilo claro e sem muitos floreados, ou seja, é o ideal para a Fantasia. Normalmente, os livros de Fantasia apresentam um estilo pesado. Por vezes, há palavras e descrições "pesadas". No entanto, isso não acontece neste livro.

Para mim, a melhor parte deste livro é a construção das personagens. Individualidades fortes, distintas e muito reais. A minha favorita é Delilah, que deseja ser pirata e que adora aventuras. É um autêntico furacão e penso que é capaz de fascinar qualquer um. Kell também é interessante por ser um grande contraste em relação a Delilah. É mais ponderado, mas também gosta de fazer as coisas à sua maneira. As restantes personagens não têm tanto tempo de antena, mas foram fabricadas de maneira a que parecessem autênticas, de qualquer forma.



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Fanart (Delilah). Fonte: Pinterest.



Concluindo, A Darker Shade of Magic é a leitura ideal para quem gostaria de ler mais Fantasia, não deixando de ser fabuloso para quem já está habituado a este tipo de leituras. Tem características originais, personagens incríveis e a escrita é leve em comparação a outras obras que se inserem neste género literário.
É, portanto, um livro que recomendo fortemente!

Classificação: 4.5/5 estrelas.



domingo, 4 de fevereiro de 2018

Opinião: As Serviçais, de Kathryn Stockett


Estamos nos anos 60, na cidade de Jackson, Mississípi, Estados Unidos da América. Vive-se dias turbulentos, destacando-se a luta pelos Direitos Civis. Muitas pessoas aceitam o seu destino, outras desejam mudanças. É neste ambiente que se cria uma forte cumplicidade entre Skeeter, uma jovem branca sonhadora recentemente licenciada, Aibileen e Minny, duas empregadas negras que, lá no fundo, querem lutar por uma vida melhor. Skeeter, inspirada pela ternura da sua antiga empregada negra, Constantine, decide escrever um livro sobre as experiências, boas e/ou más, das mulheres negras como empregadas em casas de famílias brancas. Apesar da força de vontade, como irá este trio enfrentar uma cidade que respira ódio e indiferença?



Já tinha ouvido falar na adaptação cinematográfica deste romance de estreia de Stockett e de como é uma ótima forma de dar início (aliás, continuidade) à conversa sobre o racismo. Engana-se aquele que pensa que o racismo já não existe só porque as leis são para todos e devem ser respeitadas por todos. O racismo não tem a ver apenas com um sistema judicial, também tem a ver com a estrutura da sociedade. Vivemos numa sociedade em que ainda se julga uma pessoa de acordo com a sua pele. O racismo, muita vezes, é a base do bullying, do desrespeito, da violência. Em muitos casos, chega a provocar mortes. Como seres racionais, deveríamos ser melhores do que isso e deveríamos lutar contra o mal que é o racismo. E é isso que Stockett procura fazer através d'As Serviçais.



Imagem retirada do Pinterest.


Este romance parece narrar histórias verdadeiras, uma vez que a autora soube interligar factos históricos, como mortes de grandes ativistas negros, e experiências das personagens criadas por ela, como Aibileen e Minny. Temos, por um lado, Aibileen, uma mulher pacata que trabalha para uma família branca que ignora, quase por completo, a filha mais nova e vive muito de acordo com uma das mulheres mais racistas da cidade, Hilly Holbrook. Por outro lado, temos Minny, que tem uma língua afiada e, depois de ter sido despedida por desafiar a patroa, acaba por ir trabalhar na casa de uma mulher branca um pouco estranha. São elas as grandes figuras do livro de Skeeter, a jovem branca que não entende como as pessoas são capazes de verem os negros como sendo inferiores. Apesar de ela ser branca, Skeeter é uma personagem que nos ajuda a ver outros problemas baseados na diferença, mas, desta vez, na de género. Ela é constantemente "atacada" por não andar à procura de um futuro marido e por sonhar por um emprego importante em Nova Iorque em vez de aprender como ser uma boa dona de casa. Ela também é um exemplo das pessoas brancas que gostariam de ajudar na luta pela igualdade, mas viviam no perigo de serem descobertos e irem para a prisão por contestarem a autoridade.
São, então, personagens muito diferentes. Idades diferentes, cor de pele diferente, estatutos diferentes. Contudo, semelhantes na determinação, na capacidade de sonhar e na força. São um trio inspirador. São, ainda, os alicerces deste romance, ou seja, são os pontos fortes deste livro chocante.
Uma outra personagem que também merece destaque é Hilly Holbrook. Hilly é uma mulher branca que praticamente domina a vida social da cidade de Jackson. É extremamente racista e hipócrita, pois é ela que organiza eventos de caridade para ajudar crianças que passam fome em África, mas, ao mesmo tempo, acredita que os negros são pouco inteligentes e estão cheios de doenças que podem matar os brancos. É uma personagem irritante devido à sua ignorância, mas é tão importante como as outras já referidas, já que ela é a representação dos racistas, pessoas ignorantes e convencidas de que são superiores e que pensam que os outros devem viver de forma submissa.
Portanto, no geral, a autora fez um excelente trabalho na criação das personagens, pois tornou a sua mensagem muito mais forte, apelativa e real.

Imagens da adaptação cinematográfica d'As Serviçais (fonte: Pinterest).


A escrita é simples, mas tocante. É eficaz na transmissão de valores e de mensagens. Consegue prender o leitor à história. Além disso, como a história é narrada a três vozes, temos, então, uma escrita versátil, na medida em que essas mesmas vozes estão bem diferenciadas umas das outras. O problema está na edição ou na tradução. Ou o problema talvez esteja em ambas. Não li a versão original, mas acho que a tradução não está tão fiel à fonte como deveria. Além disso, a edição, mais concretamente a revisão do texto, apresenta muitas falhas. Aliás, muitos erros presentes neste livro deveriam ter sido evitados, pois são erros horríveis numa obra literária, como vírgulas entre o sujeito e o predicado, por exemplo. 
Apesar disso, Stockett tem muito talento, quer a nível formal, quer em relação à criação de linhas narrativas interessantes.


Em conclusão, As Serviçais é um livro inspirador que nos revolta por nos mostrar o lado feio do ser humano. No entanto, incentiva-nos a usar o lado bonito,o lado da bondade, da compreensão e do amor. Com personagens extremamente reais e diversificadas, uma escrita arrebatadora e mensagens fundamentais, vale a pena ler As Serviçais.


Classificação: 4.5/5 estrelas.



sábado, 27 de janeiro de 2018

Prendas de aniversário!

Fiz 21 anos no passado dia 19 de janeiro e, claro, recebi alguns livros!


Apresento-vos, primeiro, os romances portugueses que recebi. Recebi dois de autores diferentes, sendo que já conhecia um deles, Afonso Cruz (li Os livros que devoraram o meu pai- A estranha e mágica história de Vivaldo Bonfim para uma das cadeiras do meu curso). Fiquei contente quando vi que tinha mais um livro do autor.



Sinopse retirada do site da Bertrand: «Apesar da beleza da paisagem, dos campos de arroz, do verde omnipresente, dos templos hindus, dos macacos zangados, uma das melhores coisas que trouxe de Bali foi uma oferta do João, que me embrulhou e ofereceu uma palavra, talvez duas: Jalan significa rua em indonésio, disse-me. Também significa andar. Jalan jalan, a repetição da palavra, que muitas vezes forma o plural, significa, neste caso, passear. Passear é andar duas vezes. (…) Passear é o que fazemos para não chegar a um destino, não se mede pela distância nem pela técnica de colocar um pé à frente do outro, mas sim pelo modo como a paisagem nos comoveu ou como o voo de um pássaro nos tocou. É um pouco como a arte, tem o valor imenso de tudo aquilo que não tem valor nenhum. Pode não ter razão, destino, objetivo, utilidade, e é exatamente aí que reside a riqueza do passeio. Não existem profissionais do passeio. Chesterton, que era um grande apologista do amador, dizia que as melhores coisas da vida, bem como as mais importantes, não são profissionalizadas. O amor, quando é profissionalizado, torna-se prostituição.»




Quanto ao outro autor, João Pinto Coelho, ainda não li nada dele, mas ainda bem que uma amiga escolheu oferecer-me o primeiro romance do escritor, Perguntem a Sarah Gross, que foi um dos finalistas do Prémio Leya em 2014.




Sinopse retirada do site da Bertrand: Em 1968, Kimberly Parker, uma jovem professora de Literatura, atravessa os Estados Unidos para ir ensinar no colégio mais elitista da Nova Inglaterra, dirigido por uma mulher carismática e misteriosa chamada Sarah Gross. Foge de um segredo terrível e procura em St. Oswald’s a paz possível com a companhia da exuberante Miranda, o encanto e a sensibilidade de Clement e sobretudo a cumplicidade de Sarah. Mas a verdade persegue Kimberly até ali e, no dia em que toma a decisão que a poderia salvar, uma tragédia abala inesperadamente a instituição centenária, abrindo as portas a um passado avassalador. Nos corredores da universidade ou no apertado gueto de Cracóvia; à sombra dos choupos de Birkenau ou pelas ruas de Auschwitz quando ainda era uma cidade feliz, Kimberly mergulha numa história brutal de dor e sobrevivência para a qual ninguém a preparou.
Rigoroso, imaginativo e profundamente cinematográfico, com diálogos magistrais e personagens inesquecíveis, Perguntem a Sarah Gross é um romance trepidante que nos dá a conhecer a cidade que se tornou o mais famoso campo de extermínio da História. A obra foi finalista do prémio LeYa em 2014.



A terceira oferta é um livro de Ficção Científica cuja ação ocorre na mesma galáxia da saga Star Wars. Lost Stars, de Claudia Gray, tem como personagens principais o aristocrata Thane Kyrell e a aldeã rural Ciena Reebond, que se conhecem graças à  paixão por aviação. Sonham entrar para a Academia Imperial para se tornarem em pilotos de caça em nome do glorioso Império, o que acaba por acontecer. No entanto, Thane parece querer mudar de ideias quando vê os métodos horríveis usados pelo Império. Junta-se, então, à Rebelião, colocando Ciena numa posição insuportável. Deverá  escolher ser leal ao Império ou apoiar o homem que conhece desde a sua infância?





A quarta e última oferta foi The Nightingale (O Rouxinol, na edição portuguesa), de Kristin Hannah. Sempre quis ler este livro, pois é um romance de ficção histórica que se passa na Segunda Guerra Mundial e é muito amado por muitos leitores.


Sinopse retirada do site da Bertrand: Na tranquila vila de Carriveau, Vianne despede-se do marido, Antoine, que parte para a frente da batalha. Ela não acredita que os nazis vão invadir a França… mas é isso mesmo que fazem, em batalhões de soldados em marcha, em caravanas de camiões e tanques, em aviões que enchem os céus e largam as suas bombas por cima dos inocentes. Quando um capitão alemão reclama a casa de Vianne, ela e a filha passam a ter de viver com o inimigo, sob risco de virem a perder tudo o que têm. Sem comida, dinheiro ou esperança, e à medida que a escalada de perigo as cerca cada vez mais, é obrigada a tomar decisões impossíveis, uma atrás da outra, de forma a manter a família viva. Isabelle, a irmã de Vianne, é uma rebelde de dezoito anos, que procura um objetivo de vida com toda a paixão e ousadia da juventude. 
Enquanto milhares de parisienses marcham para os horrores desconhecidos da guerra, ela conhece Gäetan, um partisan convicto de que a França é capaz de derrotar os nazis a partir do interior. Isabelle apaixona-se como só acontece aos jovens… perdidamente. Mas quando ele a trai, ela junta-se à Resistência e nunca olha para trás, arriscando vezes sem conta a própria vida para salvar a dos outros. Com coragem, graça e uma grande humanidade, a autora best-seller Kristin Hannah capta na perfeição o panorama épico da Segunda Guerra Mundial e faz incidir o seu foco numa parte íntima da história que raramente é vista: a guerra das mulheres. 

O Rouxinol narra a história de duas irmãs separadas pelos anos e pela experiência, pelos ideais, pela paixão e pelas circunstâncias, cada uma seguindo o seu próprio caminho arriscado em busca da sobrevivência, do amor e da liberdade numa França ocupada pelos alemães e arrasada pela guerra. Um romance muito belo e comovente que celebra a resistência do espírito humano e em particular no feminino. Um romance de uma vida, para todos.



Por fim, mostro-vos um livro que comprei com parte do dinheiro que recebi na minha festa de aniversário. É um outro romance de João Pinto Coelho, Os Loucos da Rua Mazur. Apesar de ainda não ter lido o primeiro livro do autor (já que o recebi no dia dos meus anos), decidi comprar o seu segundo na mesma, pois ele estará cá, em São Miguel, no dia 24 de fevereiro. Pretendo ler os dois romances antes da sessão de lançamento d'Os Loucos da Rua Mazur, que foi o livro vencedor do Prémio Leya 2017.


Sinopse retirada do site da Bertrand: Quando as cinzas assentaram, ficaram apenas um judeu, um cristão e um livro por escrever.Paris, 2001. Yankel - um livreiro cego que pede às amantes que lhe leiam na cama - recebe a visita de Eryk, seu amigo de infância. Não se veem desde um terrível incidente, durante a ocupação alemã, na pequena cidade onde cresceram - e em cuja floresta correram desenfreados para ver quem primeiro chegava ao coração de Shionka. Eryk - hoje um escritor famoso - está doente e não quer morrer sem escrever o livro que o há de redimir. Para isso, porém, precisa da memória do amigo judeu, que sempre viu muito para além da sua cegueira. 

Ao longo de meses, a luz ficará acesa na Livraria Thibault. Enquanto Yankel e Eryk mergulham no passado sob o olhar meticuloso de Vivienne - a editora que não diz tudo o que sabe -, virá ao de cima a história de uma cidade que esteve sempre no fio da navalha; uma cidade de cristãos e judeus, de sãos e de loucos, ocupada por soviéticos e alemães, onde um dia a barbárie correu à solta pelas ruas e nada voltou a ser como era.

Na senda do extraordinário Perguntem a Sarah Gross, aplaudido pelo público e pela crítica, o novo romance de João Pinto Coelho regressa à Polónia da Segunda Guerra Mundial para nos dar a conhecer uma galeria de personagens inesquecíveis, mostrando-nos também como a escrita de um romance pode tornar-se um ajuste de contas com o passado.




E, por agora, é tudo! Já leram algum destes livros?

sexta-feira, 26 de janeiro de 2018

Opinião: The Handmaid's Tale, de Margaret Atwood


The Handmaid's Tale, de Margaret Atwood, é uma distopia (é, também, muitas vezes reconhecido como um livro de ficção especulativa) e foca-se nas experiências de Offred como Serva (Handmaid, na versão original) numa sociedade que se rege segundo uma visão distorcida da tradição bíblica e onde os homens são os únicos capazes de governar. As mulheres apenas servem para cuidarem da casa, para desempenharem o papel de esposas ou para gerarem filhos (que é o caso das Servas), possuindo pouquíssimos "direitos", que acabam por não ser direitos propriamente ditos, até porque só existem para não porem em causa a existência da mulher como "fábrica de pessoas".Ao longo do romance, vemos, também, a vida de Offred antes da imposição de um governo totalmente masculino e conservador, bem como os seus pensamentos e sentimentos relativamente ao seu papel como Serva e à sua vida como mulher. Mas, por vezes, sentimos que Offred conta a sua história como se essa sociedade já não existisse. O que terá acontecido? Será que mudou para melhor? 


Estamos perante um romance intenso e extremamente importante na nossa atualidade. A nossa sociedade está cada vez mais marcada pela ignorância e, num sentido muito negativo, pela diferença. Aqueles que detêm privilégios e poderes não são capazes de olharem para aqueles que são diferentes e de os verem como iguais, levando a situações de ódio, de preconceito e de desigualdade. Neste romance, os que detêm os tais privilégios e poderes são homens velhos, muito religiosos e machistas. São homens que deturpam as palavras da Bíblia (não quer dizer que a Bíblia seja inteiramente "inocente") para atingirem o seu próprio fim, o de evitar o fim da capacidade de reprodução humana. São homens que não veem as mulheres como seres humanos, valorizando apenas o sistema reprodutor delas. Criam leis contra a educação das mulheres, formam hierarquias que colocam as mulheres umas contra as outras e elaboram regras que fazem as mulheres sentirem vergonha da sua sexualidade e da sua sensualidade. As mulheres não têm poder sobre os seus próprios corpos e os homens não são culpados pelas suas atitudes, consideradas "naturais", mas as mulheres são. Elas é que têm que proteger a sua dignidade, eles não.


How has Margaret Atwood's 1980's The Handmaid's Tale novel such political relevance?
Imagens da adaptação televisiva de The Handmaid's Tale.



Não acham tudo isto familiar? Hoje em dia, os direitos das mulheres (principalmente, quanto ao que podem fazer em relação ao seu corpo ou à sua vida sexual) são atacados por argumentos religiosos. Mantém-se, ainda, a ideia de que as mulheres são demasiado sentimentais e, portanto, pouco racionais para terem uma opinião objetiva. Muitas vezes, as mulheres lutam umas contra as outras porque revistas, concursos, filmes, etc., assim o exigem para que haja "entretenimento" e lucro. Quantas vezes vemos uma mulher, vítima de assédio sexual ou de violação, a ser culpada por ter vestido uma determinada roupa, por ter bebido demasiado ou por estar fora de casa até tarde? Quantas vezes vemos uma mulher a ser chamada de "p*ta" por mostrar um pouco de pele ou por ser muito ativa sexualmente? Quantas vezes não vemos uma mulher a ser criticada por não querer ser mãe ou não querer ter uma vida de casada?
Este romance faz-nos colocar todas estas perguntas e faz-nos pensar seriamente em como as relações de poder têm de ser redefinidas. É urgente haver manifestações, é urgente atuarmos. É urgente sermos humanos.


Como podem ver, é um livro carregado de ideias feministas, embora a autora nunca seja muito clara quando lhe perguntam se considera o seu romance feminista. Ainda assim, sim, tem muitas ideias feministas. Com todas as desigualdades e injustiças mencionadas anteriormente, e que também foram expostas no livro, vê-se a defesa da mulher como o ser humano que é. O feminismo não é mostrar que as mulheres são anjos e que são superiores aos homens. É mostrar que são tão humanas como os homens. Temos imperfeições, somos seres racionais, merecemos direitos. Mostra que temos o poder da escolha. Podemos escolher ser mães, podemos escolher não ser mães. Podemos escolher casar, podemos escolher não casar. Podemos escolher ser donas de casa, podemos escolher não ser donas de casa. Podemos escolher ocupar um lugar importante na sociedade, podemos escolher não ocupar um lugar importante na sociedade.

Vencedora do Emmy 'The Handmaid's Tale' vai passar no Brasil
Elisabeth Moss como Serva Offred na adaptação televisiva. A hierarquia é marcada pelas roupas diferentes. As Servas vestem vermelho e branco.




Ao lerem este romance, não podem dizer que a escritora tinha como intenção declarar que todos os homens são machistas e ignorantes. Na realidade, há exemplos de homens que reconhecem o seu privilégio e querem ajudar a protagonista, colocando, até, a sua vida em risco. Aliás, deve ser isso que Atwood quer como resultado: levar os homens a entenderem os privilégios que têm e que devem educar-se e saber ouvir para que, assim, consigamos resolver problemas que afetam toda a gente.
Apesar de não ter sido escrito de acordo com o ramo feminista que hoje é mais defendido, o feminismo interseccional, o livro mostra, também, como esta distopia, por exemplo, prejudica as lésbicas, vistas como "traidoras de género", ou seja, como são mulheres, deveriam querer homens nas suas vidas, quer sexual, quer emocionalmente. Isto não é tão profundamente retratado como o caso de Offred, que, na sua vida anterior, era casada com um homem e chegou a ter uma filha dele, mas parece que a autora tinha consciência da forma como a nossa sociedade vê a comunidade LGBTQIA+. Ainda assim, a mensagem peca por valorizar mais os problemas que uma mulher heterossexual enfrenta em comparação às pessoas que se identificam de outra forma relativamente ao seu género e à sua sexualidade.
Um outro defeito na mensagem é a ausência de "people of color", isto é, de "pessoas de cor", de etnias e raças diferentes. Por exemplo, as "mulheres brancas" têm, de facto, mais privilégios do que as "mulheres de cor" simplesmente devido à cor da pele e às ideias a ela associadas. No entanto, nada disto é explorado neste romance, pois nem há menção de "pessoas de cor", nem em cargos de poder, nem a ocupar outros papéis nesta sociedade distópica.





Depois de falar da mensagem de The Handmaid's Tale, está na altura de falar do livro quanto às personagens e à escrita. Offred é, sem dúvida alguma, uma das personagens "cinzentas" mais interessantes que já conheci. "Cinzenta" em relação à sua moral e à sua forma de pensar. A autora, de facto, criou pessoas. Offred é uma mulher que, antes de ser Serva, tinha o seu emprego e se casou com um homem que, na realidade, já era casado quando se conheceram e se envolveram. É um livro que defende os direitos das mulheres, mas não quer dizer que as mulheres sejam totalmente boas, e isso só vem reforçar o facto de as mulheres, realmente, serem seres humanos. Uma outra personagem interessante é o "Commander", ou seja, o homem com o qual Offred é forçada a ter relações sexuais para que possa conceber uma criança. Ele tem atitudes muito opostas, na medida em que ele vê a dor de Offred e quer tornar mais suave (o que nunca seria possível) a vida dela, mas não reconhece que as mulheres vivem segundo uma hierarquia injusta e cruel.
Quanto à escrita, é aí que retiro alguns pontos ao romance, pois demorei a habituar-me ao estilo da autora. O romance é feito de flashbacks e de momentos do (suposto) presente de Offred, mas não foi isso que achei estranho. Simplesmente fiquei surpreendida por o seu estilo ser muito marcado pela descrição e por um certo caráter poético. Apesar disso, acabei por gostar da escrita depois das primeiras cem páginas.


The Handmaids Tale Joseph Fiennes: The Handmaid's Tale Is What Happens When Men Have Too Much Power
Joseph Fiennes como Commander Fred na adaptação televisiva.


Em conclusão, The Handmaid's Tale é surpreendente e poderoso. É uma grande arma contra a ignorância e um grande aliado na luta contra os problemas de género. É útil para começar discussões importantes sobre grandes temas, como a importância do feminismo e o papel das minorias e a forma como são tratadas. É revoltante e chocante. Mas, afinal de contas, o que seria a arte sem a sua capacidade de chocar?


Classificação: 4/5 estrelas.



quarta-feira, 10 de janeiro de 2018

Mais um habitante novo na estante!

Na passada segunda-feira, fui às compras e, claro, fiquei algum tempo a ver se havia livros interessantes no Continente. Havia, então, por exemplo, Mulher-Maravilha- Dama da Guerra, de Leigh Bardugo. Este livro é o primeiro de uma coleção focada nas versões mais jovens das figuras mais notáveis do universo DC Comics. O primeiro livro, como é óbvio, é sobre a Mulher-Maravilha. Já saiu, nos EUA, o segundo livro, sobre o Batman, e, mais tarde, sairá um sobre a Catwoman e, por fim, um sobre o Super-Homem.




Sinopse retirada do site da Bertrand:
Todas as lendas têm um início. Diana tornar-se-á uma lenda, mas primeiro deverá enfrentar uma jornada (i)mortal! 

Diana: Filha de Imortais 

Da ilha das imortais Amazonas, a princesa Diana apenas pode observar o Mundo dos Homens, sem interferir. Mas no momento em que assiste a um naufrágio, e a vida de uma rapariga corre perigo, o instinto da princesa fala mais alto. Ao socorrer e trazer uma mortal para a ilha, viola uma das regras sagradas e arrisca-se a ser exilada. Pior ainda, esta não é uma rapariga qualquer e, ao salvá-la, Diana pode ter condenado o mundo. 

Alia: Filha da Morte 
Depois de o barco explodir, Alia Keralis luta pela vida. Não sabe que a tentam matar. Não sabe quem é aquela jovem misteriosa e incrivelmente forte que aparece em seu auxílio. E não sabe que ela própria é uma Dama da Guerra, descendente direta de Helena de Troia, uma linhagem condenada a trazer a guerra ao mundo. 

Irmãs de Armas 
Enquanto todos procuram assassinar Alia, a Dama da Guerra, para evitar que o mundo tenha um fim trágico, a princesa Diana sabe que há outra solução. Mas para isso terá de abandonar a sua ilha, entrar no Mundo dos Homens e enfrentar perigos inimagináveis. Uma verdadeira demanda que exigirá a confiança e a coragem de ambas para, como irmãs, enfrentarem as forças da guerra.


Como já tinha lido um número suficiente de opiniões acerca deste livro, e porque fiquei maravilhada com esta personagem depois de ver o filme Wonder Woman, decidi comprar o livro.

Já leram este livro? Acham interessante a adaptação para romance de personagens de banda desenhada?



segunda-feira, 8 de janeiro de 2018

Primeira aquisição literária de 2018!

E, no sétimo dia de 2018, realizei a minha primeira compra literária do novo ano! Optei por um autor português que ainda me é desconhecido, João Tordo.


Há sempre um burburinho quando João Tordo publica um livro, principalmente desde que recebeu o Prémio Literário José Saramago em 2008. 

Sempre li muitas críticas positivas acerca d'O luto de Elias Gro, publicado em 2015. É o primeiro de uma trilogia que já se encontra completa. Portanto, quando vi este livro na Bertrand, decidi que era altura de o comprar.



Sinopse retirada do site da Bertrand:
Numa pequena ilha perdida no Atlântico, um homem procura a solidão e o esquecimento, mas acaba por encontrar muito mais. 
A ilha alberga criaturas singulares: um padre sonhador, de nome Elias Gro; uma menina de onze anos perita em anatomia; Alma, uma senhora com um coração maior do que a ilha; Norbert, um velho louco que tem por hábito vaguear na noite; e o fantasma de um escritor, cuja casa foi engolida pelo mar. 
O narrador, lacerado pelo passado, luta com os seus demónios no local que escolheu para se isolar: um farol abandonado, à mercê dos caprichos da natureza - e dos outros habitantes da ilha. Com o vagar com que mudam as estações, o homem vai, passo a passo, emergindo do seu esconderijo, fazendo o seu luto, e descobrindo, numa travessia de alegria e dor, a medida certa do amor. 
O luto de Elias Gro é o romance mais atmosférico e intimista de João Tordo, um mergulho na alma humana, no que ela tem de mais obscuro e luminoso.







Quando chegar a altura de o ler, espero gostar do livro!

E vocês? Já leram algum livro de João Tordo?





sábado, 6 de janeiro de 2018

Opinião: Winter (#4 The Lunar Chronicles), de Marissa Meyer



Winter é o quarto e último capítulo da luta de Cinder contra a rainha de Luna, Levana. Neste livro, acompanhamos a princesa Winter, a adaptação da Branca de Neve. Winter é enteada da rainha Levana, que não gosta dela, pois o povo de Luna venera e ama imenso a inocente rapariga que, ao contrário dos restantes habitantes de Luna, não usa os seus poderes de manipulação. Por isso, passou a vida a ver coisas que não existem e é gozada pela corte que, ainda assim, a admira. Tendo como único verdadeiro amigo um fiel guarda, Jacin, Winter faz todos os possíveis para que haja justiça no reino da madrasta. Junta-se, então, a Cinder e aos restantes elementos do grupo que pretende libertar não só o planeta Terra, mas também Luna das garras do reinado de horror de Levana. Finalmente em Luna, mas sofrendo ataques planeados pela malvada rainha, como irá Cinder ter sucesso na sua demanda?


Winter foi um desfecho maravilhoso desta coleção de Ficção Científica fantástica. Nota-se o cuidado em ter um final estrondoso e bem planeado, para que não fosse um fim rebuscado e forçado. Com um ritmo um pouco mais lento do que os restantes livros, este último volume mostra melhor que, de facto, há uma guerra a acontecer e que não há tempo para conflitos amorosos, embora o amor esteja sempre presente como uma força que move e inspira as pessoas. Aborda questões sensíveis como a saúde mental e a importância da beleza numa sociedade superficial e obcecada pela ideia de perfeição e de poder. É aqui que as personagens se desenvolvem ainda mais e se tornam cada vez mais reais. A escrita também é mais cuidada e nota-se a maturidade criativa.


Fanart de Winter.


Em relação à linha narrativa, gostei de como a autora equilibrou a sua paixão por Sailor Moon com a tradicional história da Branca de Neve, adicionando a sua capacidade de transformar história já muito conhecidas. É o livro mais "pesado" por retratar mortes, dor, cenas de luta e de tortura, mas não ficam de lado o amor, a amizade e a esperança. Adorei os elementos que nos fazem lembrar a história da Branca de Neve, como a substituição da maçã envenenada por um doce contaminado pelo vírus que tanto assombra a Terra e uma máquina hospitalar a substituir o caixão de vidro. É também inteligente usar as personagens principais dos restantes livros como representantes dos Sete Anões. Portanto, o trabalho de adaptação/transformação foi muito bem executado e este livro foi o melhor nesse aspeto.



Fanart de Winter.



A escrita é mais versátil. À medida que lemos os diferentes pontos de vista das personagens, é notável a capacidade em realçar a personalidade da personagem que é destacada num determinado capítulo. Embora não tenhamos um narrador autodiegético (em primeira pessoa), a autora é suficientemente talentosa em transmitir a essência das personagens nos diferentes capítulos em que se destacam.


Quanto às personagens, vê-se o crescimento relativamente às prioridades atribuídas à formação das mesmas. Por exemplo, nos livros anteriores, notava-se mais a presença do amor entre os pares e, em Winter, temos isso em segundo plano e o leitor fica com a ideia de que, afinal, isto não é um conto de fadas. É também interessante a exploração da temática "bem vs. mal", na medida em que as personagens consideradas boas percebem que, por vezes, é necessário cometer erros e recorrer a atitudes que pertencem ao lado do "mal".





Em suma, Winter é um livro não só espetacular a nível formal, como também quanto às personagens que habitam este universo extremamente interessante e não tão diferente da nossa realidade. Tem muitas lições fundamentais para a sociedade, como a importância da igualdade de direitos, o caráter prejudicial do racismo e a aceitação da diferença como meio caminho andado para uma solução pacífica. Esta coleção, em geral, não é um conto de fadas, mas apresenta um mundo fascinante.




Classificação: 4.5/5 estrelas.