quarta-feira, 5 de setembro de 2018

Mais uma encomenda literária!

Sabem qual é o livro que anda a ser muito falado ultimamente? To All the Boys I've Loved Before, de Jenny Han! Na versão portuguesa, editada pela Topseller, o título é A Todos os Rapazes que Amei.




É o primeiro livro de uma trilogia contemporânea para os Jovens-Adultos que narra a vida romântica atribulada de Lara Jean Convey, bem como outras aventuras da protagonista coreano-americana. 
A Netflix esteve a cargo da adaptação cinematográfica do primeiro volume e o público tem adorado o filme. Posto isto, verificou-se um aumento de vendas da trilogia de Jenny Han.


Eu, por acaso, vi o filme primeiro, pois a minha irmã estava muito curiosa e não queria que eu esperasse pelo livro, que tinha sido encomendado há uns dias. Gostei do filme. É adorável e engraçado. Espero gostar do livro também!


Sinopse da edição portuguesa retirada do site da Bertrand: «Guardo as minhas cartas numa caixa de chapéu verde-azulada que a minha mãe me trouxe de uma loja de antiguidades da Baixa. Não são cartas de amor que alguém me enviou. Não tenho dessas. São cartas que eu escrevi. Há uma por cada rapaz que amei — cinco, ao todo.
Quando escrevo, não escondo nada. Escrevo como se ele nunca a fosse ler. Porque na verdade não vai. Exponho nessa carta todos os meus pensamentos secretos, todas as observações cautelosas, tudo o que guardei dentro de mim. Quando acabo de a escrever, fecho-a, endereço-a e depois guardo-a na minha caixa de chapéu verde-azulada.
Não são cartas de amor no sentido estrito da palavra. As minhas cartas são para quando já não quero estar apaixonada. São para despedidas. Porque, depois de escrever a minha carta, já não sou consumida por esse amor devorador. Se o amor é como uma possessão, talvez as minhas cartas sejam o meu exorcismo. As minhas cartas libertam-me. Ou pelo menos era para isso que deveriam servir.»



Alguém já leu este livro?



terça-feira, 4 de setembro de 2018

Opinião: Mulher-Maravilha: Dama da Guerra (DC Icons #1), de Leigh Bardugo


Autora: Leigh Bardugo
Título Original: Wonder Woman: Warbringer
Editora: Topseller
Tradução: Rui Azevedo
Revisão: Manuela Laranjeira

ISBN9789898869265
1.ª edição: outubro de 2017
Páginas: 384
Apresentação: Capa mole 



Neste romance de Fantasia para Jovens-Adultos, seguimos os passos da princesa Diana, ou Mulher-Maravilha, uma das grandes heroínas da DC Comics. 
Diana está a meio de um desafio na sua ilha de Amazonas, Themyscira, quando se dá conta de um naufrágio. Embora saiba que nenhum mortal pode pisar a ilha, a princesa resgata uma humana, Alia Keralis, mas acaba por descobrir que Alia não é uma rapariga qualquer, mas sim uma Dama da Guerra, descendente da Helena de Tróia. As Damas da Guerra , sem querer, provocam o caos na Terra e, por isso, há pessoas que tentam matá-las para impedir acontecimentos horríveis.
Ao descobrir que há uma forma de travar essa maldição no Mundo dos Homens, Diana abandona a ilha e irá enfrentar obstáculos incríveis, questionando mesmo as suas próprias capacidades como Amazona.
Portanto, irá Diana conseguir salvar Alia e evitar uma nova guerra mundial, ou o mundo irá sofrer novamente?



Como já indiquei no título, Mulher-Maravilha: Dama da Guerra é o primeiro livro de uma coleção focada nas versões jovens de heróis da editora de banda desenhada DC Comics. Neste primeiro livro, temos a Wonder Woman e a sua ingenuidade em relação ao mundo mortal, governado, muitas vezes, pela ambição e pela mentira. O segundo livro é sobre o Batman. O terceiro e o quarto livros têm a ver com a Catwoman e o Superman, respetivamente.
Para escreverem estes livros, foram convidados autores que já têm alguma experiência em criar histórias para o público Jovem-Adulto. Assim, não poderiam ter escolhido alguém melhor do que Leigh Bardugo para dar uma nova luz a esta personagem emblemática, pois não só Bardugo adora Wonder Woman, como também é muito talentosa e muito acarinhada pelos seus jovens leitores.


Por falar em talento, Bardugo prova, mais uma vez, que é muito habilidosa a escrever de forma a captar a curiosidade do leitor. Contudo, acaba por não nos dar muitas informações quanto ao universo criado pela DC Comics relativamente às Amazonas e Themyscira. É claro que estão no livro, mas não em número suficiente. Outras Amazonas, embora presentes, não têm muito tempo de antena. Não teria sido interessante se uma delas tivesse interferido nos planos de Diana? E se tivesse havido mais seres mitológicos na narrativa? Mais uma vez, estão presentes, mas não por muito tempo. Aliás, quando Diana e os novos amigos dela entram em confronto com esses outros seres, essas cenas não parecem ser muito bem executadas devido à rapidez. Diana pode ter origens divinas, força sobre-humana e conhecimentos quanto aos monstros, mas não tem experiência. Portanto, penso que essas cenas deveriam ter sido elaborados de outra forma.
De qualquer forma, como estrutura com princípio, meio e fim, o enredo está muito bem organizado. Não tem muitas surpresas e há a sensação de ser uma leitura lenta, mas continua a ser uma boa leitura. Quando há momentos com mais ação, nota-se o cuidado em criar as lutas e os contratempos. Os melhores momentos são quando Diana enfrenta os mortais, não só porque as descrições são muito boas, como também ela aprende muito acerca dos humanos, até porque ela é vítima de traições e do orgulho humano. Essa aprendizagem faz o leitor refletir imenso acerca da natureza humana, isto é, o leitor aprende alguma coisa com Diana.



DC Aesthetics: Wonder Woman
Imagem retirada do Pinterest.

Leigh Bardugo também tem sido aplaudida pela inclusão e pela diversidade presentes nos seus livros. Neste caso, temos Diana, uma jovem esbelta e que não é gozada por ser alta e ser relativamente musculada. Na realidade, ela é admirada pela sua força e pela sua destreza, bem como pela sua inteligência e pela sua rapidez em atuar em situações de alto risco. Temos, ainda, Alia e Jason Keralis. Irmãos com sangue grego e afro-americano. Além disso, Alia adora ciência e tecnologia e é como um incentivo para as meninas que querem seguir estas áreas que, ainda hoje, são muito dominadas pelos homens. Depois, temos Nim, uma indiana lésbica que adora moda e é a melhor amiga de Alia. Ela não tem medo de mostrar aos outros quem ela é. Por fim, há o Theo Santos, um rapaz de ascendência brasileira engraçado e que não se deixa ser corrompido pela ambição.
Quanto a outras personagens, apesar da presença breve das Amazonas, Bardugo foi fantástica ao criar um grupo muito diversificado, na medida em que elas vêm de várias partes do mundo. Junta-se, ainda, o destaque às deusas gregas. 
Deste modo, este livro tem muito girl power e mensagens maravilhosas relacionadas com temas muito atuais, como a sexualidade, o feminismo e mensagens contra o racismo. É um livro que mostra que as personagens com cores de pele diferentes e orientações sexuais diferentes não deveriam servir apenas como adereços. Têm as suas identidades únicas e os seus próprios papéis para desempenharem.


Wonder Woman: warbringer
Imagem retirada do Pinterest.
Em suma, Mulher-Maravilha: Dama da Guerra é um bom começo para esta coleção prometedora. Tem uma escrita simples, mas não foi uma leitura rápida (para mim, pelo menos). Não deixa de ser uma narrativa muito interessante, sendo o seu ponto forte as personagens completamente credíveis e que são uma chamada de atenção para a necessidade de haver histórias diversificadas numa literatura predominantemente masculina, branca e heterossexual. Com alguns toques (que souberam a pouco) de mitologia grega e poucos, mas bons momentos de ação, aconselho a leitura deste livro de Leigh Bardugo.


Classificação: 4/5 estrelas.


segunda-feira, 3 de setembro de 2018

Novos habitantes na estante!

Ontem, comprei um livro de contos. Hoje, recebi uma encomenda. Como nunca mais escrevi publicações sobre as minhas aquisições literárias, porque não fazer uma hoje?

Em primeiro lugar, temos Histórias da Terra e do Mar, de Sophia de Mello Breyner Andresen. Adoro a poesia de Sophia e já tinha lido um livro de contos dela, Contos Exemplares, para uma das minhas cadeiras da minha licenciatura. Claro que fiquei com vontade de conhecer mais a Sophia como escritora de narrativas e, por isso, comprei este livrinho ontem.


Sinopse retirada do site da Bertrand:

«Uma opacidade especial parece formar-se em torno dos escritores que fizeram da clareza um imperativo. Talvez em nenhum outro livro, como neste, esse destino que também coube a Sophia de Mello Breyner Andresen se mostre com tanta evidência. Livro trágico de princípio a fim, transporta todos os sinais do confronto com o sentido enquanto experiência do caos, que a muitos se afigura incompatível com a luminosidade apolínea que a prosa apuradíssima destas Histórias parece ter o segredo de produzir. E como acontece a todos os textos a que o adjectivo "trágico" se pode aplicar sem distorção, também a arte de contar está aqui bem longe de ser deixada no sossego clássico, quase infantil, que o título enganadoramente sugere.»




Quanto a encomendas, na realidade, escolhi dois livros há uns dias atrás, mas só um chegou hoje. O outro saiu mais tarde da Book Depository. Recebi, então, To Kill a Kingdom, de Alexandra Christo. É um livro de temáticas marítimas e, como raramente leio livros desses, decidi arriscar e comprar este.



Sinopse traduzida e adaptada por mim (sinopse original disponível na contracapa do livro):

A princesa Lira é uma sereia temida pelo mar inteiro até ser transformada em humana pela Rainha do Mar. Agora, Lira deve entregar o coração do infame assassino de sereias ou será humana para sempre.
O príncipe Elian é o herdeiro do reino mais poderoso do mundo e o capitão de uma equipa mortífera de assassinos de sereias. Quando ele resgata do oceano uma mulher afogada, ela promete que irá ajudá-lo a destruir as sereias para sempre. Contudo, ele não tem maneira de saber se deve confiar nela....



O mês de setembro começou bem, não acham?




sábado, 1 de setembro de 2018

Opinião: The Winner's Curse, de Marie Rutkoski


The Winner's Curse (na tradução portuguesa: A Maldição do Vencedor), de Marie Rutkoski, marca o início de uma trilogia de Fantasia com fortes influências da história greco-latina que promete deixar o leitor sedento por mais.
Neste primeiro volume, seguimos as pisadas de Kestrel, filha de um general poderoso de Valoria, um grande império. A jovem tem duas opções relativamente ao seu futuro: ou faz parte do exército, ou casa-se. Contudo, ela não quer combater e também não quer estar nas mãos de um marido e, por isso, muitas vezes, rebela-se contra o pai. Ao passear pela cidade, Kestrel encontra Arin num leilão de escravos. Devido ao ambiente que a rodeava, ela compra-o, pagando um preço elevado. Em todos os sentidos. Quem é o misterioso rapaz que a desafia e que parece ser um belíssimo cantor? O que esconde Arin?


Apesar de ter lido o livro em maio, por vezes, penso nele e na mestria de Rutkoski em criar uma narrativa tão intensa e interessante como esta. Estamos perante um enredo repleto de intrigas, onde ser-se estratégico, inteligente e cuidadoso é um lema para quem quer ver os seus planos realizados.
A autora fez um excelente trabalho em criar táticas fascinantes, não só a nível de lutas físicas e de guerras, mas também entre quanto a jogos psicológicos.
Estamos, então, perante um livro que explora as relações humanas, quer o seu lado melhor, quer o seu lado pior. Não há momentos parados, pois há sempre ideias a aparecerem, planos a serem elaborados, vinganças a serem organizadas. É uma história que nos deixa com vontade de ler mais. Chega a ser extremamente viciante e o leitor sente que deve levar o livro para qualquer lado, uma vez que ele nos proporciona momentos entusiasmantes, capazes de nos fazer abandonar as nossas rotinas aborrecidas.
Um outro aspeto muito bom é a importância de realçar bem o contraste entre a vida de uma pessoa privilegiada e a vida de um escravo. A personagem principal feminina vive no meio da riqueza e, embora tenha noção da existência da escravatura e das consequências desastrosas de uma guerra anterior, ela nunca irá entender como é exatamente a vida de um escravo. Aliás, no início da história, Kestrel sente pena e compaixão relativamente àqueles que saíram prejudicados da guerra, mas nunca partilhou os seus ideais quanto à situação em causa. Tudo muda quando ela "compra" Arin. Ele será aquele que irá despoletar ação por parte da Kestrel. É ele que irá representar as vítimas das guerras, os escravos, e irá fazer a heroína questionar tudo o que a rodeia.


The Winner's Curse by Marie Rutkoski
Imagem retirada do Pinterest.


Por falar em personagens, Rutkoski, tal como na construção do enredo, foi impecável em criar personagens representativas, isto é, cada uma representa um tipo de vida e de pessoa. Como já referi, Kestrel representa aqueles que reconhecem o seu privilégio e o estado do mundo, mas não fazem muito para mudar a situação. Também representa a força feminina através da sua inteligência e astúcia, mas não tanto pela força física. Arin é aquele que quer lutar pelos seus e contra os opressores. Mostra, ainda, os sentimentos conflituosos de quem passa a conhecer o outro lado da luta. Já o pai da Kestrel é uma autêntica imagem das pessoas sedentas por poder e conquistas infinitas, pondo em causa a liberdade dos outros. Os amigos de Kestrel são aqueles que ignoram por completo as injustiças que os outros enfrentam, focando-se somente na riqueza e no divertimento.
Deste modo, temos um romance com personagens muito bem arquitetadas.


The Winner's Curse
Imagem retirada do Pinterest,
Tradução feita por mim: Não é isso que as histórias fazem? Tornar coisas reais falsas e coisas falsas reais?

Tudo isto foi possível graças à escrita envolvente de Marie Rutkoski, sendo também genial em organizar uma história de Fantasia inovadora, até porque não envolve os elementos habituais de um livro Fantástico, como magia, dragões e afins. Contudo, é bom saber que esta trilogia baseia-se na História, mais concretamente no tempo em que os romanos conquistaram a Grécia e escravizaram os gregos. Assim, a autora mostra uma grande capacidade para "reformular" momentos históricos grandiosos.



Bertrand.pt - A Maldição do Vencedor
Capa da edição portuguesa.


The Winner's Curse é o primeiro passo numa viagem avassaladora focada na injustiça, na opressão, na dor, mas também no amor e na vontade de lutar por algo melhor. Com personagens cativantes e um enredo magnificamente construído, The Winner's Curse é ideal para quem adora livros inteligentes e que analisam a mente humana.


Classificação: 4.5/5 estrelas.



segunda-feira, 25 de junho de 2018

Opinião: And Then There Were None, de Agatha Christie


And Then There Were None (na tradução portuguesa: As Dez Figuras Negras) é um dos romances mais conhecidos da escritora britânica Agatha Christie. Estamos perante um grupo de dez pessoas que se vê numa ilha devido a um convite de um homem misterioso. Todos os convidados aparentam ser muito diferentes, mas têm algo em comum: passados enigmáticos e duvidosos. Mal chegam à ilha, coisas estranhas acontecem e os convidados, um a um, vão morrendo inexplicavelmente.

Foi a primeira vez que li um livro de Agatha Christie e penso que foi a melhor maneira de começar a aventurar-me pelos reinos da rainha dos livros policiais. Com uma escrita muito acessível e um enredo aparentemente simples, And Then There Were None é um romance que aborda de forma impecável a moralidade e os aspetos negativos do ser humano, como a ganância, o ciúme e a obsessão. Ao apresentar personagens moralmente cinzentas, o leitor sente-se cativado por não saber se deve confiar nelas ou julgá-las. O bichinho da curiosidade está sempre presente e devora-nos no fim, isto é, quando se revela finalmente quem está por detrás dos crimes.
Os crimes cometidos pela figura misteriosa, ao estarem ligados à maneira de ser das personagens, tornam o romance mais rico, bem como os crimes cometidos, ou não, pelas próprias personagens.


And Then There Were None - I really want to see this.
Imagem da adaptação televisiva do And Then There Were None da BBC.

Normalmente, as pessoas preferem histórias policiais no formato televisivo. Portanto, é preciso muito talento para um escritor poder agarrar a atenção daqueles que adoram enigmas. Agatha Christie é, de facto, um sucesso literário, pois, apesar de ter lido apenas um romance dela, é notável como ela organiza as suas histórias. Ela tem um estilo de escrita claro e o enredo é apresentado de forma muito direta, mas sem perder o seu caráter misterioso. É impossível o leitor perder-se no fio condutor criado por Christie e ela sabe partilhar os detalhes importantes, sem perder tempo em vaguear por caminhos inúteis. Ela expõe a informação necessária a nível da ciência forense sem que o leitor se sinta ignorante relativamente ao assunto. 
São também admiráveis os crimes que ela imaginou para cada personagem. Representam, de facto, várias fraquezas do ser humano. Adorei, por exemplo, o caso de Vera Claythorne, que cometeu um crime atroz, mas teve o final que merecia. Vemos, até ao fim, o seu conflito interior e como a morte dela pode até ser uma liberdade para ela. É também interessante a forma como a justiça é vista neste romance. Ela é, de facto, cega e defende a igualdade. Temos pessoas, pobres e ricas, importantes socialmente ou não, com bons ou maus empregos, que são castigadas de qualquer forma. Não há privilegiados.


Imagem retirada do Pinterest.

Embora o enredo seja intrigante, penso que as personagens não foram suficientemente desenvolvidas. Como temos tantas pessoas que podem, ou não, ter cometido crimes, cada uma delas foi explorada tendo como base esses mesmos crimes. Contudo, nem todas foram muito bem examinadas. Portanto, o ponto fraco deste livro é o facto de se dar mais relevo aos crimes em si do que às próprias personagens, havendo apenas, talvez, duas exceções.


Concluindo, para quem não está habituado a ler policiais, mas gostaria de não só ler este tipo de histórias, como também conhecer o grande fenómeno literário que é Agatha Christie, acho que And Then There Were None é o romance ideal. Não há ponta soltas, não há detalhes em excesso e é fascinante a forma como se aborda a presença ou a falta de moralidade do ser humano.


Classificação: 4/5 estrelas. 






quinta-feira, 10 de maio de 2018

Opinião: Fangirl, de Rainbow Rowell


Fangirl, de Rainbow Rowell, centra-se em Cath, uma rapariga de 18 anos que inicia uma nova etapa na sua vida como adulta, a Universidade. Contudo, ela não quer deixar para trás um amor de infância: uma coleção de livros de Fantasia que se foca em Simon Snow e nas suas peripécias como mágico. Cath escreve fan fiction, ou seja, histórias criadas por fãs que querem alargar e/ou alterar o universo de um livro, de uma série televisiva ou de um filme. Parece ser algo inofensivo, mas a sua vida é demasiado "controlada" pela ficção. Além disso, ela também não sabe interagir com os outros, sofre de ansiedade e não acredita em si própria quando escreve outros textos para além de fan fiction. Portanto, como irá ela lidar com o afastamento da irmã, os problemas do pai e o aparecimento de Levi, um rapaz sorridente e extrovertido? Como irá ela lidar com a Universidade? Será ela capaz de encontrar um equilíbrio entre a realidade e a ficção?


Fangirl é um romance engraçado, razoavelmente leve (digo isto assim, pois aborda assuntos importantes, mas de forma simples) e ternurento. É, ainda, uma homenagem aos fãs, que são fundamentais não só para o sucesso de um livro, de uma série ou de um filme, como também expandem os horizontes dos mesmos. Como romance contemporâneo para Jovens-Adultos, Fangirl apresenta personagens jovens, mas quase adultas, credíveis e, com as quais, os mais novos se podem identificar. De facto, é um livro genuíno e quase perfeito. Digo quase perfeito, pois penso que certos temas não foram bem retratados. Ainda assim, mostra como é importante o equilíbrio entre a ficção e a realidade, isto é, é bom ler para nos afastarmos da realidade e, também, para aprendermos algo acerca dela através da imaginação. No entanto, também é importante ter os pés bem assentes na terra.

Fangirl by Rainbow Rowell
Fanart (fonte: Pinterest).

O enredo é muito simples, mas, se pensarmos bem, contém personagens e situações que não estão muito presentes na literatura contemporânea para os Jovens-Adultos (falo em relação ao mercado português). Por exemplo, temos a presença de personagens que sofrem de ansiedade, de depressão e de dislexia, bem como problemas com o álcool. Apesar de ser bom haver personagens que apresentam estas condições, não gostei muito da forma como elas foram tratadas. Foram tratadas de forma demasiado leviana ou, então, não houve uma pesquisa profunda relativamente a estas situações. Mas, agora, vou falar dos aspetos positivos.
Como há tantas personagens femininas, seria de esperar muitas cenas de rivalidade entre elas. No entanto, em relação a isso, este livro inova. Não quer dizer que as personagens femininas não tenham as suas discussões, mas, pelo menos, não servem para enaltecer as personagens masculinas e enfraquecer as femininas. Servem para mostrar que qualquer pessoa pode ter problemas com qualquer pessoa e que tudo pode ser resolvido através do diálogo e do esforço em perceber o outro. Deste modo, é bom ver um livro que não se foca em conflitos desnecessários entre raparigas devido a relações amorosas.
Um outro aspeto bom, e que é algo não muito frequente nos livros para Jovens-Adultos, é a presença da família. Já li muitos livros YA (Young-Adults, ou seja Jovens-Adultos) em que os pais ou outros elementos familiares existem, mas são mencionados apenas uma ou duas vezes e parecem não fazer parte da educação ou da vida das personagens mais novas. Neste caso, há um pai, que tem problemas do foro da saúde mental, mas não é menos pai por isso. De facto, mostra que a saúde mental deve ser levada a sério e que não é uma vergonha, nem sinal de fraqueza ou de incapacidade. Há, ainda, uma mãe que abandonou a sua família e que, anos depois, gostaria de entrar em contacto com as filhas. Também é uma situação rara neste tipo de histórias e, embora tenha sido tratada de forma rápida neste livro, mostra que Rainbow Rowell tinha a intenção de inovar o panorama dos romances para Jovens-Adultos ao incluir personagens e situações diferentes e realistas.


Relativamente à escrita, esta é simples, mas extremamente viciante. Repleta de humor, mas também de seriedade, permite que o livro tenha uma essência muito familiar, sendo capaz de cativar qualquer leitor. Faz-nos devorar páginas e mais páginas. Rainbow Rowell tem mesmo um dom. É uma escrita que parece ser muito natural e, assim, faz-nos apaixonar também pela história. Deste modo, a forma como Rowell escreve e a forma como cria enredos funcionam muito bem em conjunto.

Quanto às personagens, e como puderam ver nos parágrafos anteriores, elas são muito diversificadas e há de tudo um pouco para todos os leitores. Temos Cath, tímida, ansiosa, pouco destemida, mas querida e persistente, que adora escrever, falar sobre ficção e que tenta ajudar os outros. Temos Levi, um rapaz extremamente simpático, carinhoso e resiliente, que não permite que as adversidades da vida o façam desistir. Gostei muito da relação entre Cath e Levi, pois não é muito comum vermos a rapariga ser aquela que elogia mais a pessoa com quem namora. Também dá muitos mimos ao Levi e isso, certamente, deixará muitos leitores felizes. Depois, temos Wren, a irmã de Cath, e Reagan, a companheira de quarto de Cath, que são espíritos livres e que, de facto, passam por momentos menos bons, mas aprendem com os seus erros. Podem não mostrar os seus sentimentos, mas, lá no fundo, gostam dos seus amigos. Também quero destacar o pai da Cath e da Wren, que, apesar dos seus problemas, esforça-se sempre em ser um melhor pai.


Fangirl by Rainbow Rowell
Fanart (fonte: Pinterest).
Depois de tudo isto, podem ver que Fangirl não é apenas mais um livro sobre uma rapariga peculiar que se apaixona por um rapaz e, assim, a história não passa disso. Não, ainda bem que este livro é muito mais do que isso. O enredo tem muitos fios condutores interessantes. É verdade que, como mostrei, nem todos foram bem explorados, mas é um livro diferente por tentar ser mais realista e por ter uma escrita agradável e cativante. Deixa-nos a sorrir e faz-nos pedir por mais.



Classificação: 4/5 estrelas.








sábado, 5 de maio de 2018

Opinião: O Coração de Simon Contra o Mundo, de Becky Albertalli



O coração de Simon conta o mundo, de Becky Albertalli, é um romance contemporâneo para Jovens-Adultos. Dá-nos a conhecer Simon, um estudante do ensino secundário que tem um segredo: ele é gay. Só uma pessoa é que sabe disso, um rapaz conhecido por Blue, por quem Simon se apaixona ao trocar com ele imensos emails amorosos e engraçados. Todavia, um dia, Simon deixa a sua conta ligada num computador da escola e um colega descobre e ameaça-o revelar o seu segredo em troca de um favor. Irá Simon sair derrotado desta situação ou irá ele finalmente conseguir mostrar ao mundo quem ele realmente é?



Um dos livros mais adoráveis de sempre! Um romance com uma escrita tão simples, mas tão fascinante, entusiasmante e divertida, que pretende mostrar que o amor não ocorre apenas entre um homem e uma mulher e, por isso, também pretende mostrar o quão normal é o amor entre pessoas do mesmo sexo. Faz abrir os olhos a quem não aceita as diversas e infinitas facetas do amor e faz-nos sentir felizes por ser uma história tão inocente e tão cativante.


Como qualquer romance YA  (Young-Adult: Jovem-Adulto) contemporâneo, o enredo tem alguns clichés. Contudo, penso que é uma boa forma de se mostrar que, independentemente do género e/ou da identificação sexual, o amor é amor. O livro apresenta dramas típicos da adolescência, discussões entre amigos e familiares, festas, dúvidas, momentos embaraçosos e muito mais, tal como em qualquer outro romance YA. Ainda assim, é uma história diferente graças às personagens, que parecem ser tão reais ao ponto de, no final, acharmos que são amigos nossos. Normalmente, os clichés são mal vistos. Costumam ser situações ou ideias que são usadas tantas vezes  que não trazem originalidade à história, mas isso não acontece no livro de Albertalli. Ela renova-os ao ponto de eles não parecerem ser clichés. 
A história desenrola-se num bom ritmo, nem muito devagar, nem muito depressa. Foi elaborada de forma muito organizada, mas transmite a sensação de que foi construída de forma fluída e natural. Não há nenhum ponto solto e todas as personagens, principais ou não, desempenham um papel importante, principalmente quanto a um livro que pretende mostrar que as pessoas LGBTQ+ são, obviamente, pessoas.
É uma história engraçada e agradável. Adorei as referências à cultura pop, ou seja, a livros como Harry Potter, a programas televisivos, etc. Adorei como a personagem principal, Simon, está envolvida no teatro da escola. Adorei as tais dúvidas típicas da adolescência. Mas também é uma história que deve ser levada a sério. Muitas pessoas morrem, porque a sociedade não as aceita tal como elas são. Muitos morrem, porque a sociedade diz que não devem ser gays. Muitos morrem, porque a sociedade diz que não devem ser transsexuais. Muitos morrem devido à cor da sua pele. Portanto, um romance como O Coração de Simon Contra o Mundo é fundamental no nosso tempo. Mostra que a sociedade está errada ao não aceitar essas diferenças. Gosto de dizer que somos todos iguais por sermos todos diferentes.





"Simon vs. the Homo Sapiens agenda"   <3
Fanart (fonte: Pinterest).
E não é que a escrita é tão boa quanto ao enredo? Aliás, grande parte da magia do livro reside na escrita de Becky Albertalli. A naturalidade e a simplicidade do seu estilo são incríveis. É uma escrita sincera numa história sobre segredos e máscaras. É uma escrita fresca e leve. Distrai-nos do mundo que nos rodeia e faz-nos saborear facilmente o enredo.


Mais um ponto positivo em relação a esta linda história: as personagens. Autênticas como a escrita, mas não quer dizer que sejam perfeitas. Há muitas pessoas que pensam que a literatura deveria ter personagens perfeitas, na medida em que elas deveriam ser um exemplo para as pessoas. No entanto, não concordo com essa ideia, que considero estapafúrdia. As personagens, no caso de serem pessoas, devem ser, então, humanas. Nós, como humanos, temos imperfeições. Simon pode ser muito simpático, divertido e adorável por ser um pouco socialmente estranho, mas também julga os outros e faz uma asneira ou outra. Ele é o exemplo de que é possível gostarmos de personagens imperfeitas. Também gostaria de dizer que não se dá apenas relevo a uma personagem gay. Há também uma personagem bissexual. Há também uma personagem negra. Como Simon se apaixona, há também mais uma personagem gay. Portanto, é magnífico ver as minorias representadas. É como Blue diz: "É definitivamente irritante que hétero (e branco, já agora) seja a norma, e que as únicas pessoas que têm de pensar na sua identidade sejam as que não encaixam no molde".

Fanart (fonte: Pinterest).



Concluindo, O Coração de Simon Contra o Mundo é para toda a gente, mas principalmente para aqueles que, até agora, não tinham ninguém como eles na ficção. Mostra que ser gay não é erro nenhum, que é uma diferença que, infelizmente, a sociedade, no geral, não aceita ainda. Mas é uma história sobre o amor, a amizade e a esperança. O amor e a amizade são importantes para que a esperança por um mundo melhor permaneça, para que depois essa esperança passe a ser uma realidade que possamos viver. É um livro adorável, que nos faz sorrir e que contém personagens incríveis e verossímeis. Aconselho a 100% a leitura deste livro.



Classificação: 4.5/5 estrelas.